Delação premiada na Bahia expõe esquema de fuga de presos e cita ex-ministro Geddel Vieira Lima
O ex-ministro Geddel Vieira Lima (MDB) foi citado na delação premiada da ex-diretora do Conjunto Penal de Eunápolis, Joneuma Silva Neres, que firmou acordo de colaboração com o Ministério Público da Bahia (MP-BA). O documento, acessado pelo g1 e pela TV Bahia, detalha como ela facilitou a fuga de 16 detentos do presídio em dezembro de 2024, em um esquema que envolveria pagamentos milionários e figuras políticas.
Negociação de R$ 2 milhões e suposta ligação com Geddel
Segundo a delação, a negociação foi intermediada pelo ex-deputado federal Uldurico Júnior (PSDB), que à época estava filiado ao MDB, partido de Geddel. Joneuma relatou que Uldurico negociou a fuga por R$ 2 milhões, afirmando que metade desse valor seria destinada ao ex-ministro. Em suas declarações, Uldurico se referia a Geddel como "chefe" e encaminhava mensagens supostamente enviadas pelo correligionário, cobrando o repasse dos valores.
Geddel Vieira Lima negou veementemente qualquer envolvimento no caso, classificando as acusações como "profunda indignação". Em entrevista ao g1, ele afirmou: "Ela diz coisas não sobre mim, mas que ele disse para ela. No fundo, ele estava vendendo meu nome descaradamente para acalmar ela, como se eu fosse protegê-lo". O ex-ministro destacou que o inquérito policial não faz referência a ele e que Uldurico é "irresponsável, inconsequente e leviano".
Detalhes do esquema de fuga e pagamentos
Joneuma Silva Neres, que ficou presa por mais de um ano e agora cumpre prisão domiciliar, detalhou minuciosamente o plano de fuga. Ela relatou que os detentos Ednaldo Pereira Souza (Dadá), chefe da facção Primeiro Comando de Eunápolis (PCE), e Sirlon Risério Dias Silva (Saguin), subchefe, já tinham as chaves da cela e possuíam uma furadeira para abrir um buraco. A fuga, inicialmente marcada para o último dia de 2024, foi adiantada para 12 de dezembro após Dadá ser informado sobre uma possível transferência.
O acordo financeiro, conforme a delação, incluía um adiantamento de R$ 200 mil, pago antes da fuga. Joneuma descreveu como recebeu o dinheiro em uma caixa de sapato em uma residência no bairro Juca Rosa e o entregou na casa do pai de Uldurico Júnior, Uldurico Alves Pinto, em Teixeira de Freitas. Parte do valor foi depositada na conta do ex-deputado e outra parte transferida via PIX para um terceiro.
Reações das defesas e investigações em andamento
A defesa de Uldurico Júnior, preso na quinta-feira (16), negou todas as alegações, afirmando que são falsas e têm o intuito de livrar Joneuma da responsabilidade. "Uldurico jamais teve conhecimento de plano algum de fuga, nem recebeu dinheiro nenhum por tal fato, o que pode ser facilmente comprovado", disse a defesa. O g1 tentou contato com a defesa de Joneuma, mas não obteve retorno até a publicação da reportagem.
A Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização (Seap) informou que tem colaborado "de forma irrestrita" com as investigações desde a ocorrência da fuga em massa. As defesas de Alberto Cley Santos Lima (Cley da Auto Escola) e de Uldurico Alves Pinto também não foram localizadas para comentários.
Contexto político e desdobramentos
Uldurico Júnior, que perdeu a eleição para prefeito de Teixeira de Freitas, teria procurado Joneuma em outubro de 2024 para conseguir recursos financeiros, alegando dívidas urgentes. A ex-diretora afirmou que o ex-deputado pressionou por mais contato com Dadá para negociar a fuga, utilizando o nome de Geddel Vieira Lima como parte da estratégia.
Este caso se soma a uma série de investigações sobre corrupção e crime organizado na Bahia, levantando questões sobre a infiltração política em esquemas criminosos. As autoridades continuam apurando os detalhes da delação, enquanto os acusados mantêm suas versões de inocência.



