A Polícia Federal executou nesta quarta-feira (4) uma operação baseada em evidências cruciais extraídas da perícia realizada nos celulares de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Os investigadores afirmam que o conteúdo digital revela, com riqueza de detalhes, os mecanismos de uma sofisticada engrenagem criminosa, cujo combustível principal era a corrupção institucional.
Os quatro núcleos do esquema criminoso
De acordo com a Polícia Federal, a organização comandada por Vorcaro operava através de quatro núcleos principais, cada um com uma função específica dentro da estrutura ilícita:
- Núcleo financeiro: Responsável pela estruturação e execução de fraudes contra o sistema financeiro nacional, criando mecanismos para desviar recursos.
- Núcleo de corrupção institucional: Voltado especificamente para a cooptação de servidores públicos do Banco Central, garantindo acesso a informações privilegiadas e decisões regulatórias favoráveis.
- Núcleo de ocultação patrimonial e lavagem de dinheiro: Utilizava uma rede de empresas interpostas e de fachada para esconder a origem ilícita dos recursos e integrá-los à economia formal.
- Núcleo de intimidação e obstrução da justiça: Tinha a função de monitorar ilegalmente adversários, jornalistas e autoridades, além de praticar atos para impedir ou dificultar investigações.
Cooptação de servidores do Banco Central
A investigação identificou que Vorcaro montou uma rede para obter acesso direto a informações confidenciais do Banco Central. Os peritos encontraram nas conversas do banqueiro trocas de mensagens com dois servidores de carreira do BC: Paulo Sérgio Neves de Souza, então chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária, e Belline Santana, chefe do mesmo departamento.
Os diálogos revelam documentos, minutas de reuniões e indícios claros de favores pessoais e pagamentos irregulares. Ambos os servidores foram afastados de seus cargos pela diretoria do Banco Central em 8 de janeiro de 2026, após o início de uma sindicância interna, e estão proibidos de acessar os sistemas da autarquia.
Relação de emprego disfarçada
As mensagens mostram que Paulo Sérgio chegou a dar conselhos a Vorcaro sobre como se portar em uma reunião com o presidente do Banco Central, atuando, na prática, como um consultor privado do banqueiro. Belline Santana mantinha dinâmica similar, sendo instado a opinar sobre um ofício que o próprio Banco Master enviaria ao departamento que ele chefiava.
Para justificar pagamentos a esses servidores, Vorcaro utilizou contratos simulados de prestação de serviços, intermediados por uma empresa de consultoria, criando uma fachada legal para a contraprestação pela "assessoria" ilegal prestada.
Favores pessoais e ameaças a jornalistas
Em um trecho revelador das conversas, ao ser informado por Paulo Sérgio sobre uma viagem pessoal do servidor aos parques da Disney e Universal, Vorcaro comenta que precisaria "arrumar guia para essas pessoas", acionando imediatamente um contato para providenciar o serviço.
No entanto, o aspecto mais grave exposto pela perícia diz respeito ao núcleo de intimidação. As mensagens mostram ordens diretas de Daniel Vorcaro para monitorar e agredir pessoas vistas como ameaças, incluindo concorrentes, ex-funcionários e jornalistas.
Ameaças ao jornalista Lauro Jardim
Um alvo específico foi o jornalista Lauro Jardim, do jornal "O Globo". Em troca de mensagens com Luiz Phillipi Mourão, conhecido como "Sicário", Vorcaro demonstrou incômodo com uma reportagem desfavorável.
"Tinha que colocar gente seguindo esse cara. Pra pegar tudo dele", disse Vorcaro, ao que Mourão respondeu: "Vou fazer isto". Em outro momento, a violência é explicitada: "Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto". Mourão respondeu com sinais positivos e afirmou: "Estamos em cima de todos os links negativos. Vamos derrubar todos e vamos soltar positivas".
A Polícia Federal interpreta esses diálogos como fortes indícios de que Vorcaro ordenou a Mourão que forjasse um assalto para violentar o jornalista e, com isso, silenciar vozes críticas da imprensa.
Reações e medidas judiciais
O jornal "O Globo" emitiu nota repudiando veementemente as ameaças, afirmando que a ação visava "calar a voz da imprensa", pilar fundamental da democracia, e que seus jornalistas não se intimidarão. Associações como ANJ, Abert, Fenaj, Abraji e a Associação Internacional de Radiodifusão também manifestaram repúdio, classificando os métodos como "próprios de práticas mafiosas" e incompatíveis com o Estado de Direito.
O ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal, determinou o bloqueio de R$ 22 bilhões pertencentes a Vorcaro e outros investigados. Em sua decisão, Mendonça destacou a urgência das medidas para evitar riscos à segurança de vítimas e para recuperar ativos bilionários desviados.
A terceira fase da Operação Compliance Zero também expôs uma divergência com a Procuradoria-Geral da República, que pedia mais prazo, mas o ministro insistiu na celeridade para evitar a ocultação de recursos, como ocorreu mesmo após a soltura de Vorcaro em novembro de 2025.
A investigação continua apurando a extensão total do esquema, que representa um dos maiores casos de corrupção e tentativa de obstrução da justiça no sistema financeiro brasileiro recente.
