Polícia Federal acusa Bacellar de atuar como líder político do Comando Vermelho no Rio de Janeiro
A Polícia Federal (PF) indiciou nesta sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026, o deputado estadual afastado Rodrigo Bacellar, do União Brasil, e o ex-deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Joias. As acusações envolvem vazamento de informações sigilosas a integrantes do Comando Vermelho (CV), uma das maiores facções criminosas do país. O caso, segundo investigadores, revela uma infiltração profunda do crime organizado em estruturas centrais do poder público no estado do Rio de Janeiro, atingindo diretamente figuras ligadas ao bolsonarismo na região.
Relatório da PF detalha papel de Bacellar como "liderança do núcleo político" do CV
Em um relatório final de 188 páginas enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF), a Polícia Federal afirma que Rodrigo Bacellar exercia "a liderança do núcleo político" do Comando Vermelho. O documento sustenta que o parlamentar era responsável por fornecer "a interlocução política necessária à blindagem das ações da horda". Para a PF, a atuação de Bacellar representa "o retrato perfeito da espoliação dos espaços públicos de poder pelas facções criminosas no Rio", destacando a interação nefasta entre organizações criminosas violentas e agentes públicos.
O relatório aponta ainda que a manutenção de vínculos com o Comando Vermelho teria motivações eleitorais, uma vez que a facção controla extensos territórios no estado, o que pode se converter em influência política e votos. Bacellar, que presidiu a Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e ocupou interinamente o governo estadual, foi preso em dezembro após decisão do ministro Alexandre de Moraes, sob suspeita de vazar informações da Operação Zargun, que mirava TH Joias. Atualmente, ele cumpre medidas cautelares, como uso de tornozeleira eletrônica e recolhimento domiciliar noturno.
TH Joias é apontado como intermediário de compras de armas para o Comando Vermelho
A investigação também descreve o papel de TH Joias dentro da estrutura criminosa. Segundo a Polícia Federal, ele atuava como um "parlamentar estadual membro do Comando Vermelho com assento na Alerj para atendimentos escusos da facção nos mais distintos assuntos, notadamente na área da segurança pública". O relatório indica que o ex-deputado intermediou a aquisição de armas e equipamentos tecnológicos para a organização, reforçando os laços entre o crime organizado e a política fluminense.
Planilha encontrada pela PF revela loteamento de cargos públicos e cita aliados bolsonaristas
Além das acusações de vazamento de informações, buscas realizadas pela PF no gabinete de Bacellar revelaram indícios de loteamento de cargos públicos. Em um computador do chefe de gabinete do parlamentar, os agentes encontraram uma planilha intitulada "PEDIDOS EM 12-04-23", que detalhava a distribuição de estruturas do estado entre deputados aliados. O documento listava o que cada parlamentar já "possuía" em termos de cargos e influência e quais seriam seus novos "pleitos" dentro da máquina pública.
Entre os pedidos, aparecem indicações para órgãos como Detran, Fundação Leão XIII, Faetec e postos em hospitais e secretarias. Destaque para o nome do deputado Douglas Ruas, que solicitou cargos na Faetec e no Detran de São Gonçalo, além de obras no município. Ruas foi anunciado recentemente como candidato ao governo do Rio com apoio do senador Flávio Bolsonaro, do PL. A PF afirma que 87,88% dos deputados que apareciam na planilha votaram a favor da soltura de Bacellar após sua prisão, sugerindo uma rede de influência consolidada.
Reações políticas e defesas dos acusados
O caso provocou reações na oposição. A deputada federal Talíria Petrone, do PSOL-RJ, afirmou: "A CASA CAIU! O ex-presidente da Alerj, deputado Rodrigo Bacellar, parceiro do governador Claudio Castro, exercia 'liderança do núcleo político' do CV, aponta a investigação da Polícia Federal. 'Retrato perfeito da espoliação', diz a PF. Uma organização criminosa está no comando do RJ e precisa ser retirada de lá à força pelo povo do Rio de Janeiro na eleição de outubro." O deputado federal Bohn Gass, do PT-RS, relacionou o caso ao campo bolsonarista, destacando a conexão entre Bacellar e candidatos apoiados por Jair Bolsonaro.
As defesas dos citados negam irregularidades. Em nota, os advogados de Bacellar disseram que não há provas de participação em crimes e classificaram o indiciamento como "arbitrário e abusivo". Já a defesa de TH Joias declarou: "A defesa de TH Joias informa aos jornalistas e nega peremptoriamente qualquer participação de Thiego em qualquer vazamento ou informações a qualquer organização criminosa do estado do Rio de Janeiro. Sua relação com o deputado Rodrigo Bacellar era uma relação entre colegas de parlamento".
Este caso expõe uma teia complexa de corrupção e crime no Rio de Janeiro, com implicações significativas para as eleições estaduais e a segurança pública na região.
