Polícia Civil desarticula esquema de venda de armas produzidas por impressoras 3D
A Polícia Civil do Rio de Janeiro, em conjunto com o Ministério Público e o Ministério da Justiça, deflagrou a Operação Shadowgun para combater uma rede interestadual de produção e comercialização de armamentos fabricados com impressoras 3D. A investigação revelou que armas e peças produzidas com essa tecnologia foram vendidas em plataformas de e-commerce utilizadas no Brasil, representando um grave risco à segurança pública.
Comércio eletrônico facilita disseminação de armas
Durante coletiva realizada nesta terça-feira (12), a coordenadora do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio, Letícia Emile, confirmou que os investigadores detectaram anúncios e transações envolvendo componentes de armamentos vendidos em sites de comércio eletrônico. "O que nos chamou atenção foi que eles comercializavam essas peças e assessórios em plataformas de e-commerce", revelou a promotora.
De acordo com as investigações, foram identificadas aproximadamente 75 transações no Mercado Livre envolvendo a compra e venda desses produtos, com distribuição em diferentes regiões do país. A utilização dessas plataformas amplia significativamente o risco de disseminação do armamento, especialmente entre adolescentes que frequentam esses ambientes digitais.
Quadrilha oferecia suporte técnico completo
As investigações apontaram que o grupo criminoso não apenas vendia armamentos prontos, mas também comercializava o projeto digital necessário para fabricar as armas. Segundo o procurador-geral de Justiça do Rio, Antônio José Campos Moreira, os suspeitos ofereciam instruções detalhadas e até suporte técnico aos compradores.
"Não são fábricas, são pessoas que idealizaram um projeto digital e passaram, além de comercializar as armas fabricadas, passaram a comercializar esse projeto, oferecendo inclusive um tutorial e acompanhamento técnico", explicou o procurador. Esse modelo permite que qualquer pessoa com acesso à tecnologia possa produzir o armamento em casa, sem qualquer controle estatal.
Produção caseira de baixo custo preocupa autoridades
Investigadores alertaram para o baixo custo de fabricação dessas armas. Segundo o delegado Marcos Buss, titular da 32ª DP (Taquara), um dos modelos investigados na operação é a carabina Urutau, desenvolvida por um brasileiro que usava o pseudônimo "Zé Carioca".
Essa carabina pode ser integralmente fabricada por uma impressora 3D dentro de casa com materiais de baixo custo. De acordo com os investigadores, a fabricação do armamento pode custar cerca de R$ 800, tornando-o acessível a um grande número de pessoas.
Risco de radicalização e conexão com crime organizado
Durante a coletiva, o procurador-geral de Justiça alertou para o risco de disseminação dessas armas entre grupos radicais. A facilidade de produção pode ampliar o acesso ao armamento fora de qualquer sistema de controle, possibilitando que grupos extremistas e terroristas adquiram essas tecnologias.
A investigação também revelou que parte dos compradores identificados possui ligação com atividades criminosas. "Foi detectado que alguns desses compradores eram envolvidos com o crime organizado, seja no tráfico de drogas, seja em milícia, ou em homicídios", contou Letícia Emile.
Operação abrange 11 estados e resulta em prisões
A Operação Shadowgun foi deflagrada para desarticular um esquema interestadual de produção e venda de armamentos fabricados com impressoras 3D. Até a última atualização, quatro homens haviam sido presos, incluindo o apontado como chefe da quadrilha.
Agentes cumpriram cinco mandados de prisão e 36 de busca e apreensão em São Paulo, no Rio de Janeiro e em outros nove estados. As investigações identificaram 79 compradores em todo o país, incluindo pessoas com antecedentes por tráfico de drogas, homicídio e outros crimes.
No Rio de Janeiro, foram identificados 10 compradores, na capital, na Região dos Lagos e no Norte Fluminense. Os investigados responderão na Justiça pelos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro e comércio ilegal de arma de fogo.
