USP demite professor acusado de assediar alunas de pós-graduação em Ribeirão Preto
USP demite professor por assédio a alunas em Ribeirão Preto

USP determina demissão de professor acusado de assediar alunas em Ribeirão Preto

A Universidade de São Paulo (USP) determinou oficialmente nesta quinta-feira (12) a demissão do professor José Maurício Rosolen, acusado de assediar alunas de pós-graduação do departamento de química no campus de Ribeirão Preto, no interior paulista. A decisão foi tomada após conclusão de processo administrativo que investigou denúncias de assédio moral e sexual ocorridas entre 2021 e 2024.

Processo administrativo e decisão institucional

A diretoria da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCLRP), onde o docente atuava, acatou parecer da Procuradoria Geral da universidade que recomendou a demissão do professor. Rosolen já estava afastado desde março de 2025, quando a USP abriu o processo administrativo por denúncias de assédio moral e sexual contra ex-alunas. A universidade também determinou que o caso seja reenviado à Polícia Civil, que já concluiu inquérito e o relatou à Justiça em setembro de 2025, conforme informações da Secretaria de Segurança Pública do estado.

O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) informou que o processo corre sob sigilo judicial. Procurado para se manifestar, o professor não se posicionou até a publicação das informações sobre sua demissão.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Relatos detalhados de assédio e ameaças

O processo administrativo disciplinar apurou denúncias de pelo menos 16 mulheres que afirmaram terem sido assediadas por Rosolen. Ex-alunas de pós-doutorado, que preferiram manter o anonimato, relataram contatos físicos inapropriados, convites inconvenientes e assédio moral após recusarem suas investidas. Os episódios ocorreram entre 2021 e 2024, período em que eram orientadas pelo docente.

Uma das ex-alunas contou que os primeiros episódios de assédio começaram na primeira semana em que ingressou no grupo de pesquisa, em 2024. "Logo na primeira semana já começaram umas coisas muito esquisitas, alguns comportamentos inadequados. Ele me chamando para fazer ginástica com ele na USP, me cobrando para ir com roupa de ginástica", relatou a vítima, que salvou conversas em que o professor fazia o convite.

Convites inapropriados e ameaças veladas

A mesma ex-aluna revelou que o professor a convidou para uma viagem internacional, sugerindo que apenas os primeiros dois dias seriam de trabalho e depois poderiam passear. "Nessa época, minha bolsa ainda não tinha caído e daí ele falou 'eu consigo pagar sua passagem com o dinheiro do meu projeto, mas eu não tenho dinheiro para pagar diária pra você. Mas não tem problema, porque a minha diária como professor é muito boa, eu pego um quarto de hotel e a gente divide, eu sou solteiro, você é solteira, não vejo problema nenhum'", detalhou a vítima.

No mesmo dia do convite para a viagem, começaram os contatos físicos. O primeiro ocorreu no carro, quando foram à oficina da USP levar uma peça de metal. "Quando chegou no estacionamento da oficina, ele foi me mostrar o que queria fazer na peça. Era uma peça grande, comprida, que eu estava segurando. Em vez de ele apontar pra o que ele queria fazer, ele colocou a mão dele sobre a minha, fez um carinho e depois subiu para a peça pra explicar. Eu já fiquei nervosa, comecei a chorar, pensei em desistir", desabafou a ex-aluna.

Justificativas e ameaças explícitas

Em conversa gravada em outubro de 2024, o docente tentou se justificar dizendo que apenas queria ser "gentil e educado" ao convidar a aluna para jantares, viagens e pedir para ela ir com roupa de academia. No mesmo diálogo, que durou aproximadamente duas horas, o professor ameaçou encerrar a pesquisa e consequentemente a bolsa que custeava a permanência da aluna em Ribeirão Preto.

"Então é o seguinte: vou te dar dois meses e, em dezembro, o projeto acaba. Você tem dois meses, está ganhando muito bem, provavelmente cobriu a sua estadia aqui, que, por sua livre e espontânea vontade, você veio", afirmou Rosolen na gravação, demonstrando relação de poder abusiva sobre a estudante.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Retorno ao campus e preocupações

Curiosamente, no início desta semana, antes da votação que decidiu pela demissão, alunas da universidade relataram terem visto o professor nas dependências do campus, gerando preocupação entre a comunidade acadêmica. O caso expõe desafios institucionais no combate ao assédio em ambientes universitários e a importância de mecanismos eficazes de proteção às vítimas.

A demissão do professor representa medida significativa da USP no enfrentamento a casos de assédio, mas também levanta questões sobre os processos internos de investigação e a necessidade de maior agilidade na apuração de denúncias dessa natureza.