Polícia investiga morte de PM Gisele: áudio revela planos de sair de casa antes do crime
Áudio mostra PM planejando sair de casa antes de morte suspeita

Polícia investiga morte de PM Gisele: áudio revela planos de sair de casa antes do crime

O advogado da família da soldada da Polícia Militar Gisele Santana, encontrada morta com um tiro na cabeça em fevereiro, apresentou nesta segunda-feira (16) um áudio que, segundo ele, demonstra que a policial planejava sair do apartamento onde morava com o marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto. De acordo com o advogado Miguel Silva, a gravação foi enviada por Gisele ao pai e evidencia que ela solicitava auxílio para localizar uma nova casa, preferencialmente próxima da residência dos pais.

Desespero e busca por independência

Durante entrevista coletiva, o advogado afirmou que a mensagem reforça a versão da família de que a policial pretendia se afastar do marido. “Recebi um áudio onde Gisele, no ano passado, pede para o pai arrumar uma casa para ela. O desespero era tanto”, declarou Silva. No áudio apresentado, Gisele discute a procura por uma moradia perto dos pais para facilitar a rotina de trabalho e os cuidados com a filha. “Não, pai, pra mim é melhor aí, rua, entendeu? Quanto mais perto daí, melhor. De manhã eu vou sair muito cedo pra ir trabalhar e aí eu vou ter que deixar a [nome da criança] dormindo aí, entendeu?”, diz a policial na gravação.

Em outro trecho, ela explica que residir mais próximo ajudaria a evitar deslocamentos longos antes do trabalho. “Então, quanto mais perto, melhor. Porque eu já deixo ela aí e já pego o trem pra ir trabalhar, entendeu? Pra não ficar tendo essa viagem aí de manhã. Eu perco muito tempo. Eu entro cedo aqui no serviço”, afirma no áudio. O advogado da família argumenta que a mensagem indicaria que Gisele planejava deixar o apartamento onde vivia com o marido e se mudar para mais perto dos pais.

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Histórico de ameaças e perseguição

O advogado também mencionou que o tenente-coronel Neto possui um histórico de ameaças e perseguições contra mulheres. Segundo Miguel Silva, existem registros policiais e decisões judiciais que apontam episódios de ameaças contra ex-companheiras, além de denúncias de assédio e perseguição contra policiais militares mulheres subordinadas ao oficial dentro da corporação. “Quando eu disse que o tenente-coronel é um violador, um assediador, já há muito tempo, eu fiz uma crítica ao comando da Polícia Militar e ao secretário da Segurança. Eu mantenho essa crítica, haja vista que ele deveria ter sido afastado já há muito tempo das suas funções”, afirmou o advogado.

Conforme a defesa da família, os episódios sugerem um padrão de comportamento do policial. “É um histórico ameaçador, um histórico perseguidor”, disse o advogado. De acordo com Silva, uma ex-companheira do tenente-coronel registrou boletins de ocorrência contra ele entre 2009 e 2010. Em um dos registros, a mulher relatou que sofria perseguições e perturbações constantes. “Tem um boletim de ocorrência de 2010 em que uma vítima, sua ex-mulher, diz que vem sofrendo vários problemas de perturbação de sua tranquilidade. A ex-mulher se socorre de medida protetiva e diz o seguinte: 'o autor mantém vigilância sobre a vítima, impedindo que ela se relacione com outras pessoas, ameaçando inclusive de morte'”.

Em outra BO de 2022, aponta Silva, a vítima relata que estava sendo ameaçada dentro do próprio apartamento. “Foi lavrado um BOPM em 22 de janeiro de 2022 em que outra vítima se queixa. O assunto é ameaça. ‘Está entrando dentro do meu apartamento o senhor major’”, disse. O advogado ainda citou um processo judicial relacionado a um episódio ocorrido em 2022, quando o oficial ainda era major. Segundo ele, a Justiça reconheceu que houve assédio moral contra uma policial militar subordinada em um caso envolvendo transferência de agentes mulheres. “Em 8 de julho de 2022, o servidor major Neto decidiu movimentar quatro policiais femininas para outro local de trabalho como forma de punição, sem apresentar motivos legais para a transferência. Passando a perseguir o efeito feminino, incluindo a requerente”.

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Defesa de coronel sustenta suicídio

Quase um mês após a morte de Gisele Santana, a defesa do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto ainda sustenta a versão de que a soldada se suicidou com um tiro na cabeça no apartamento do casal em São Paulo. O caso ocorreu em 18 de fevereiro. “A defesa do tenente-coronel aguarda serenamente o desenrolar da apuração da Polícia Civil com a juntada de todos os laudos e externa a confiança na palavra do coronel: de que trata-se de suicídio”, disse ao g1 o advogado Eugênio Malavasi, que defende o coronel Geraldo. “E isso será comprovado de forma cristalina ao final da investigação”.

Já o advogado que defende os interesses da família de Gisele elevou o tom ao alegar que a morte da soldada foi consequência de um crime, o feminicídio — cometido, segundo ele, pelo próprio marido dela, o coronel Geraldo. “Eu não tenho dúvidas que ele [coronel Geraldo] matou ela [Gisele]. Mas cabe a polícia provar”, disse o advogado José Miguel da Silva Júnior. O caso, registrado inicialmente como suicídio, passou a ser investigado como morte suspeita pela Polícia Civil. A hipótese de que a agente da PM se matou não foi descartada totalmente, mas também está sendo apurada a possibilidade de que a mulher possa ter sido vítima de feminicídio.

Dúvidas na versão do PM

Gisele tinha 32 anos. Geraldo tem 53. Foi ele quem deu a versão à Polícia Civil de que a esposa se suicidou e quem telefonou para a PM pedindo ajuda. Segundo o coronel, após uma discussão, o oficial disse que pediu a separação e foi tomar banho. Um minuto depois, Gisele teria pegado sua arma e disparado contra a própria cabeça, pelo lado direito. Isso teria ocorrido sem ele ver. A família da soldada, no entanto, contestou a hipótese de suicídio, apresentou relatos de que Gisele vivia uma relação tóxica com o coronel e pressionou por uma reavaliação do caso.

A Polícia Civil então reclassificou o episódio como morte suspeita. A Justiça determinou a redistribuição do caso para a Vara do Júri, por entender que há indícios de crime doloso contra a vida — categoria que inclui feminicídio, por exemplo. Laudos periciais reforçaram as dúvidas sobre a versão inicial. Exames apontaram marcas de unhas e arranhões no pescoço da policial, além de lesões contundentes no rosto e sinais de disparo à queima‑roupa. Além disso, agentes que atenderam a ocorrência estranharam o fato de que a arma que matou Gisele estava ainda na mão dela — algo incomum em casos de suicídio.

Outros pontos que geraram dúvidas na investigação sobre a versão de suicídio incluem o fato de que Geraldo disse que tinha ido tomar banho, mas estava com o corpo seco quando as autoridades chegaram até o apartamento. E de ele ter telefonado para um desembargador amigo, que foi até o local — câmeras do hall do prédio gravaram esse encontro. Depois de conversarem, o coronel tomou banho. Por decisão judicial, o corpo chegou a ser exumado para novos exames, justamente porque ainda havia dúvidas sobre as circunstâncias da morte.

Laudos: prontos e que faltam

A investigação também analisa os laudos produzidos pela Polícia Técnico‑Científica. Já estão concluídos:

  • Laudo necroscópico: causa da morte por traumatismo decorrente de disparo encostado do lado direito da cabeça. Também identificou lesões no rosto e pescoço, compatíveis com pressão digital e marcas de unhas, confirmadas no primeiro exame e na exumação.
  • Laudo residuográfico: não detectou pólvora nas mãos do coronel ou de Gisele — o que gera estranheza na hipótese de suicídio.
  • Laudo da trajetória do tiro: de baixo para cima.

Ainda estão pendentes de juntada ao inquérito o laudo toxicológico, que determinará se Gisele consumiu alguma substância, e o laudo do local da morte, com registros fotográficos da posição do corpo. Peritos já adiantaram que encontraram marcas de sangue no banheiro, o que também causou estranheza já que Gisele foi encontrada morta em outro cômodo. Paralelamente à apuração da Polícia Civil, a Polícia Militar instaurou um Inquérito Policial Militar (IPM) após receber denúncias anônimas relatando que o casal vivia uma relação marcada por ameaças, perseguição e instabilidade emocional atribuídas ao tenente‑coronel. As investigações continuam em andamento.