PF e MP-ES revelam esquema de policiais que desviavam drogas apreendidas para tráfico
Policiais do Denarc desviavam drogas apreendidas para tráfico

Esquema criminoso envolve policiais do principal departamento antidrogas do ES

Uma investigação conjunta da Polícia Federal e do Ministério Público do Espírito Santo revelou um esquema organizado no qual policiais civis do Departamento Estadual de Narcóticos (Denarc) se aliaram a traficantes para desviar drogas apreendidas em operações e revendê-las no mercado ilegal. O Fantástico obteve acesso exclusivo a áudios, vídeos e depoimentos que detalham a extensão da corrupção.

Mecanismo do desvio e participação de agentes

Segundo os documentos da investigação, os policiais atuavam em conluio com criminosos que funcionavam como informantes, indicando concorrentes que transportavam entorpecentes. Após as abordagens e apreensões, parte significativa das drogas era desviada e repassada aos próprios informantes para revenda, com os lucros sendo divididos entre as partes. Três investigadores da Polícia Civil foram afastados por ordem judicial, e um deles, Eduardo Tadeu, foi preso sob suspeita de liderar o esquema.

Em depoimentos, testemunhas afirmaram que "o maior traficante do Espírito Santo é um policial civil", evidenciando a gravidade do caso. As apurações indicam que o grupo não apenas desviava drogas, mas também negociava diretamente com criminosos, com um traficante relatando ter comprado 50 quilos de droga de um dos agentes por R$ 49 mil.

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Ligações com o PCC e extensão do esquema

As provas incluem conversas extraídas do celular de Yago Sahib, conhecido como "Passarinho", traficante ligado ao PCC que atuava na região central de Vitória. As mensagens mostram contato frequente com um policial do Denarc identificado como "D33", referência ao apelido e ao nome completo de Eduardo Tadeu. Em um dos registros, Sahib aparece dirigindo com maços de dinheiro no carro, que, segundo a investigação, teria sido usado para comprar crack do próprio policial.

O esquema revelou-se mais amplo do que inicialmente apurado, com outros traficantes sendo abordados e coagidos a trabalhar para o grupo. Relatos de extorsão também emergiram, com um traficante afirmando ter pago cerca de R$ 25 mil para ser liberado após uma abordagem. Em outro caso, cerca de 300 quilos de droga teriam sido desviados de uma apreensão total de 500 quilos.

Investigações prolongadas e envolvimento de mais agentes

As suspeitas contra Eduardo Tadeu existem há pelo menos nove anos, com a Corregedoria da Polícia Civil tendo aberto investigação, mas as ações foram antecipadas pelo Ministério Público e pela Polícia Federal. O delegado-geral do Espírito Santo reconheceu que a apuração interna avançava em ritmo diferente, embora já estivesse em andamento.

Além de Eduardo Tadeu, outros policiais civis do Denarc são investigados, incluindo Erildo Rosa, que também foi preso. Há indícios de participação de policiais militares, com 15 PMs sendo investigados e denunciados por envolvimento com o tráfico de drogas. A Polícia Militar informou que 14 investigados estão presos preventivamente e afirmou não concordar com condutas ilícitas de seus integrantes.

Impacto na confiança pública e posicionamentos

Para os investigadores, o caso é especialmente grave por envolver agentes responsáveis pelo combate ao crime, ferindo a confiança que a população deposita neles. A defesa de Eduardo Tadeu não se manifestou, enquanto o advogado de Erildo Rosa aguarda acesso completo aos dados da investigação, alegando falta de elementos concretos que comprovem a participação do cliente em organização criminosa. A Defensoria Pública, que representa o traficante conhecido como Passarinho, não comentou o caso.

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