Operação em 11 estados desmantela esquema de venda de armas produzidas em impressoras 3D
Uma operação policial de grande porte, realizada simultaneamente em onze estados brasileiros, resultou na desarticulação de um sofisticado esquema de produção e venda de armas fabricadas com impressoras 3D. As investigações, conduzidas pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) em conjunto com a Polícia Civil, apontaram como principal responsável pela organização criminosa o homem conhecido na internet pelo pseudônimo "Zé Carioca".
Identificação do líder
Após meses de apurações, as autoridades conseguiram identificar o verdadeiro nome por trás do apelido digital: Lucas Alexandre Flaneto de Queiroz, de 25 anos. Natural de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, Lucas residia em Serra, no Espírito Santo, no momento de sua prisão. O delegado Marcos Buss, da 32ª DP (Taquara), destacou a importância da identificação: "O Zé Carioca é o Lucas Alexandre. Ele ganhou notoriedade por trás desse pseudônimo, deu entrevistas para veículos internacionais como The Guardian, e hoje foi desmascarado".
Esquema criminoso e a arma Urutau
Segundo a denúncia do MPRJ, Lucas Alexandre era o líder de uma organização criminosa que utilizava a internet para desenvolver, divulgar e comercializar armas e acessórios fabricados com tecnologia de impressão 3D. O grupo atuava com uma clara divisão de tarefas e empregava plataformas digitais para financiar e disseminar os projetos das chamadas "armas fantasmas" – armamentos sem número de série e de difícil rastreamento pelas autoridades.
O investigado é apontado como o principal desenvolvedor da carabina Urutau, um modelo projetado especificamente para ser fabricado com impressoras 3D utilizando componentes de fácil acesso no mercado. O projeto, desenvolvido entre 2021 e 2024, tornou-se um dos mais conhecidos na comunidade internacional de armas impressas em 3D. "Ela pode ser integralmente fabricada por uma impressora 3D, com conhecimento básico de engenharia metalúrgica", explicou o delegado Buss.
A arma Urutau foi pensada para ser ainda mais simples de produzir do que outros projetos semelhantes, podendo ser fabricada com impressoras de baixo custo. O custo estimado de produção varia entre R$ 600 e R$ 800 por unidade, sem considerar o valor da impressora e de outros equipamentos. Além de ser semiautomática, a arma também poderia ser adaptada para disparos em rajada, aumentando significativamente seu potencial letal.
Atuação internacional e financiamento
Lucas Alexandre utilizava os pseudônimos "Zé Carioca" e "JosephTheParrot" para divulgar os projetos na internet, mantendo perfis em redes sociais e plataformas digitais onde publicava arquivos, manuais e orientações técnicas. O grupo também aceitava pagamentos em criptomoedas, principalmente Monero, ativo digital conhecido por dificultar o rastreamento de transações financeiras.
As investigações revelaram que o líder da organização arrecadou recursos por meio de campanhas online para financiar viagens e projetos. Uma dessas campanhas teve como objetivo custear sua participação na conferência MoneroKon 2025, em Praga, na República Tcheca, onde ele apresentou o projeto da arma Urutau em uma palestra intitulada "Beyond the FGC-9: Shaping the Next Steps of True Liberty". "Esse indivíduo, por ter conseguido fazer essa arma, ganhou projeção mundial. Uma dessas carabinas foi encontrada na Austrália, outra na Nova Zelândia", relatou o delegado.
Estrutura do grupo e ideologia
A investigação identificou que Lucas Alexandre não atuava sozinho. Ele comandava um grupo formado por outros jovens com conhecimento técnico em áreas como engenharia, tecnologia e impressão 3D. A organização possuía estrutura hierárquica e divisão de tarefas, incluindo funções específicas para desenvolvimento dos projetos, testes dos modelos, divulgação nas redes e venda de peças e acessórios.
Entre os integrantes identificados estão Gianluca Bianchi, Luigi Barbin da Costa, Vinicius Soriano Hernandes (conhecido como "Sandmann") e João Guilherme Pinto (identificado pelo apelido "_rainha_loli"). O material enviado aos interessados em fabricar as armas incluía um manifesto de caráter ideológico, distribuído junto com os manuais e projetos digitais. O texto defendia a ideia de que o acesso às armas deveria ser livre e fora do controle do Estado, com uma base ideológica ligada ao movimento "cyberpunk".
Comercialização em plataformas nacionais
A Operação Shadowgun identificou que armas e peças produzidas com impressoras 3D foram comercializadas em plataformas de e-commerce usadas no Brasil. Letícia Emile, coordenadora do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MPRJ, confirmou: "Foram detectadas, aproximadamente, 75 transações no Mercado Livre envolvendo a compra e venda dessas peças".
O delegado Marcos Buss acrescentou que, inicialmente, o grupo conseguiu comercializar carregadores de pistola Glock no Mercado Livre. "Quando a plataforma bloqueou, ele passou a comercializar essas armas na 'Deep Web'. Então esse número, que já é um número grande, é apenas a superfície", explicou.
Alerta internacional e acusações
A apuração teve início após um alerta enviado ao Brasil por autoridades dos Estados Unidos sobre um usuário que estaria divulgando armas feitas com impressoras 3D nas redes sociais. A partir dessas informações, o Laboratório de Operações Cibernéticas do Ministério da Justiça acionou a Polícia Civil do Rio e o Ministério Público.
Os investigados são acusados de organização criminosa, comércio ilegal de armas de fogo e lavagem de dinheiro. A operação resultou na prisão de quatro pessoas e evidenciou como a tecnologia de impressão 3D está sendo utilizada por grupos criminosos para produzir armamentos de baixo custo e difícil rastreamento, representando um novo desafio para as autoridades de segurança pública no Brasil e no exterior.
