Morte de PM em apartamento: laudos, câmeras e testemunhas contradizem versão de suicídio
Morte de PM: laudos e testemunhas contradizem suicídio

Morte de PM em apartamento: laudos, câmeras e testemunhas contradizem versão de suicídio

Depoimentos de socorristas que atenderam a ocorrência da morte da soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana em fevereiro deste ano levantam questionamentos graves sobre a versão apresentada pelo marido da vítima, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto. Em depoimento à Polícia Civil, o oficial afirmou que estava tomando banho no momento em que ouviu o disparo, mas os primeiros bombeiros que chegaram ao local relataram que ele estava completamente seco e que não havia marcas de água no chão do apartamento.

Contradições na versão do banho

Segundo o depoimento detalhado do tenente-coronel, ele entrou no banheiro para tomar banho por volta das 7 horas da manhã e, aproximadamente um minuto depois, ouviu um barulho que pensou ser de uma porta batendo. Ao sair do banheiro, afirmou ter encontrado Gisele caída na sala. No entanto, um sargento do Corpo de Bombeiros com quinze anos de experiência relatou que, ao chegar ao apartamento, encontrou Geraldo vestindo bermuda, sem camisa e inteiramente seco.

"O declarante afirma que não havia nenhum tipo de pegada molhada que indicasse que o Tenente-Coronel teria saído imediatamente durante o banho, inclusive ele estava seco", registrou o socorrista em seu depoimento oficial. O profissional também afirmou que o chuveiro do banheiro do corredor estava ligado, mas não havia poças de água no chão ou no corredor adjacente.

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A observação foi reforçada por um tenente da Polícia Militar cuja equipe foi a primeira a chegar ao local dos fatos. Ele apontou que nem Geraldo nem Gisele aparentavam estar molhados ou terem tomado banho antes do disparo fatal.

Conduta emocional questionável

Outro ponto que chamou profundamente a atenção da equipe de resgate foi o estado emocional do marido da vítima. O sargento do Corpo de Bombeiros afirmou categoricamente que não viu nenhum tipo de desespero por parte do tenente-coronel, nem o viu chorando durante todo o atendimento.

Segundo outro bombeiro que prestou depoimento, a conduta do oficial também chamou atenção porque ele "falava calmamente" ao telefone, questionava a todo momento o atendimento prestado pelos bombeiros e insistia repetidamente que a vítima fosse retirada com pressa e levada imediatamente ao hospital.

Os socorristas também observaram detalhe crucial: o oficial não apresentava nenhuma marca de sangue no corpo ou nas vestimentas, o que indicaria fortemente que ele não teria tentado prestar os primeiros socorros à esposa após o suposto disparo.

Laudo pericial revelador

O laudo pericial oficial revelou que o disparo da arma foi feito com o cano encostado no lado direito da cabeça da vítima. Além disso, um dos socorristas relatou ter desconfiado da posição da arma, que estava "bem encaixada" na mão da soldado, situação considerada incomum em casos de suicídio.

Ligação para desembargador gera questionamentos

Entre os contatos feitos por Geraldo na manhã da ocorrência, um deles chamou especial atenção da família da policial: a ligação para o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo. O magistrado chegou ao prédio às 9h07 e subiu imediatamente para o apartamento com o tenente-coronel.

O advogado da família, José Miguel da Silva Junior, questiona abertamente a presença do magistrado no local. "Ele vai ter que explicar por que estava lá. Pelo relato que temos, o desembargador foi a primeira pessoa acionada após o disparo", afirmou o profissional.

Registros de câmeras mostram que às 9h18 o desembargador reaparece no corredor do prédio. Onze minutos depois, às 9h29, o tenente-coronel surge vestindo outra roupa, diferente da que usava quando os bombeiros chegaram inicialmente ao apartamento.

O que dizem as defesas

Em nota oficial, a defesa do tenente-coronel Geraldo Neto afirma que ele não é investigado, suspeito ou indiciado no processo até o momento. Segundo os advogados, o oficial tem colaborado ativamente com as autoridades desde o início dos fatos e permanece à disposição para ajudar na elucidação completa do caso.

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Já a defesa do desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan informou que ele foi chamado ao apartamento exclusivamente como amigo do tenente-coronel e que eventuais esclarecimentos necessários serão prestados diretamente à polícia judiciária responsável pela investigação.

O caso, inicialmente registrado como suicídio, segue sob investigação rigorosa da Polícia Civil do Estado de São Paulo e da Corregedoria da Polícia Militar, com novas diligências sendo realizadas para esclarecer todas as contradições encontradas nos depoimentos e evidências coletadas.