Única sobrevivente do atentado que matou Marielle Franco analisa condenações históricas
A jornalista Fernanda Chaves, única sobrevivente do atentado que assassinou a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes em março de 2018, declarou que a responsabilização dos mandantes pelo Supremo Tribunal Federal (STF) vira uma página crucial do caso, mas revela um Rio de Janeiro "completamente ocupado pelo crime". Em entrevista ao programa J10, da GloboNews, ela afirmou: "O Estado brasileiro demonstrou hoje que esse tipo de crime não pode ser tolerado".
Alívio simbólico e dor irreparável após o julgamento
Após a conclusão do julgamento pelo Supremo, Fernanda Chaves expressou um sentimento de alívio, mas ressaltou que a Justiça não repara a dor. "Sem dúvida nenhuma, é uma sensação de alívio. A Justiça só não repara a dor da gente. Ela tem um papel pedagógico e moral, que é simbólico, mas não repara a dor", disse. Ela descreveu a perda como dilacerante: "Interromperam um corpo, uma matéria de Marielle. E para a gente que é próximo —amigos, trabalhadores, familiares—, para quem convivia com ela, é uma dor dilacerante essa vida ser interrompida brutalmente como foi".
Condenações históricas e a lógica do crime político
A Primeira Turma do STF condenou os irmãos Chiquinho Brazão, ex-deputado federal, e Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro (TCE-RJ), a 76 anos e três meses de prisão por planejar e mandar matar Marielle Franco e Anderson Gomes. Eles também terão de pagar R$ 7 milhões em reparação de danos para os familiares das vítimas. Ronald Paulo Alves Pereira, major da Polícia Militar do Rio de Janeiro, também foi condenado pelas mortes e pela tentativa de homicídio de Fernanda Chaves.
Durante a entrevista, Chaves destacou o teor dos votos dos ministros, que abordaram temas como machismo e misoginia. "Esse crime foi pensado, gestado para atacar um campo ideológico da política fluminense. Mas, sem dúvida, ele tem um recorte misógino, de raça e de classe quando a Marielle é escolhida", avaliou. Ela enfatizou que o processo expõe um estado de coisas caótico: "Acho que ainda há muito a fazer. O processo revela um estado de coisas caótico que precisa ser enfrentado. Essa lógica nefasta de crime político e de interesses institucionais precisa ser combatida".
Absolvição parcial e condenação por corrupção
O julgamento também envolveu Rivaldo Barbosa, delegado e ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro. Ele foi absolvido do crime de homicídio qualificado por "dúvida razoável", mas condenado por corrupção passiva e obstrução de justiça, por ter recebido dinheiro da milícia para atrapalhar as investigações. Ao todo, Barbosa foi condenado a 18 anos de prisão. A Primeira Turma do STF concordou parcialmente com a denúncia da Procuradoria Geral da República (PGR), mantendo a maioria das acusações.
Legado de Marielle e a luta contínua
Fernanda Chaves refletiu sobre o legado de Marielle Franco, afirmando que os condenados passarão o resto de suas vidas ouvindo sobre ela. "O que eu tiro disso tudo é que essas pessoas vão passar o resto das vidas delas ouvindo [sobre] a Marielle. Nesse sentido, a Marielle vive. Vive em muitas mulheres. Teremos Marielle para sempre", disse. Ela concluiu que, apesar do alívio, o caso evidencia a necessidade de combater a ocupação do crime no Rio de Janeiro e a corrupção institucional, marcando um passo importante, mas insuficiente, na busca por justiça.



