Delegado-geral da Polícia Civil de Alagoas é investigado por suspeita de ligação com esquema criminoso de fraudes em concursos
O delegado-geral da Polícia Civil de Alagoas, Gustavo Xavier do Nascimento, tornou-se alvo de um mandado de busca e apreensão em uma operação da Polícia Federal que investiga um extenso esquema de fraudes em concursos públicos, conhecido como 'Máfia dos Concursos', com sede em Patos, no Sertão da Paraíba. A ação ocorreu na terça-feira (17) e envolveu cumprimento de ordens judiciais nos estados da Paraíba, Pernambuco e Alagoas, revelando uma trama que abrange múltiplas instituições públicas.
Decisão judicial aponta suspeitas de pressão e ameaças
De acordo com a decisão do juiz Manuel Maia de Vasconcelos Neto, da 16ª Vara Federal de Justiça da Paraíba, o delegado-geral é suspeito de pressionar a família que chefiava o grupo criminoso para garantir aprovações ilícitas de familiares em concursos públicos. O documento judicial, ao qual o g1 teve acesso, determinou a operação após considerar que, embora os indícios não fossem suficientes para decretar a prisão preventiva de Gustavo Xavier, eles apontam para uma possível participação que merece investigação aprofundada.
O Ministério Público Federal da Paraíba (MPF-PB) havia solicitado a prisão preventiva do delegado, mas a Justiça optou por medidas cautelares menos drásticas neste momento. A Secretaria de Segurança Pública de Alagoas (SSP-AL) informou que só se pronunciará após ser formalmente notificada sobre os acontecimentos, enquanto o delegado e a Polícia Civil do estado não responderam aos pedidos de esclarecimento até a última atualização desta reportagem.
Base probatória inclui depoimentos e interceptações telefônicas
A investigação contra Gustavo Xavier se baseia em dois pilares principais: depoimentos de colaboradores premiados do grupo criminoso e interceptações telefônicas entre os investigados. Em um dos trechos do resumo do MPF, baseado na colaboração de Thyago de Andrade, chefe da organização criminosa da Paraíba, e de sua esposa Laís Giselle, suspeita de operacionalizar parte do esquema, lê-se: "Um nacional conhecido por Delegado Xavier, através de preposto tal como Eudes, coagiu Thyago a fraudar concurso público a seu mando".
Outro trecho do documento aponta expressamente que o delegado-geral teria utilizado sua posição na corporação para ameaçar o líder da organização e obter vantagens ilícitas. "Atual Delegado-Geral da Polícia Civil no Alagoas, passou a ter poder de comando na ORCRIM (organização criminosa) quando, mediante ameaça, fez com que Thyago Andrade cometesse fraude em benefícios de seus aliados", afirma o texto.
Beneficiários incluem familiares e aliados do delegado
Conforme o processo, as vantagens obtidas por meio das ameaças do delegado-geral incluíram a aprovação fraudulenta de sua esposa, Aially Soares, no Concurso Nacional Unificado para o cargo de auditor fiscal, e de seu irmão, Mércio Xavier, no concurso do Banco do Brasil, em 2023. Além disso, Anacleide Ferreira Feitosa, esposa de Eudson Matos – apontado como "porta-voz" de Gustavo Xavier na organização criminosa – teria sido aprovada no concurso da Polícia Científica de Alagoas por determinação do delegado.
Eudson Matos, que era policial civil em Alagoas, está preso desde 2024. Outro nome citado no processo é o do policial civil Ramon Izidoro Soares Alves, que também exerce mandato de vereador em Arapiraca, Alagoas. Contra ele, a Justiça Federal aprovou quebra de sigilo telemático, interceptação telefônica e um mandado de busca e apreensão.
Outros alvos e detalhes do esquema criminoso
A operação da Polícia Federal resultou na prisão preventiva de Dárcio de Carvalho Lopes da Silva Souza e Flávio Luciano Nascimento Borges, ambos funcionários da Caixa Econômica, em João Pessoa. Eles são apontados como integrantes ativos do esquema de fraudes, com Dárcio, conhecido como "Dadá Meu Frango", envolvido diretamente na fraude ao concurso da Polícia Federal, e Flávio Luciano, alias "Panda/7777", participando do repasse de gabaritos.
Waldir Luiz de Araújo Gomes, servidor do Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB) e identificado como "Mister M", também foi alvo da operação, com quebra de sigilo telemático e interceptação telefônica decretadas. Ele teria atuado como coordenador de locais de prova, acessando e violando malotes para obter provas antes da aplicação.
Máfia dos Concursos: esquema familiar com cobranças de até R$ 500 mil
A investigação revelou que o grupo criminoso, liderado por uma família de Patos, cobrava até R$ 500 mil por vaga em concursos públicos, utilizando tecnologia avançada para burlar sistemas de segurança, como dublês, pontos eletrônicos implantados cirurgicamente e comunicação em tempo real durante as provas. Os pagamentos eram feitos em dinheiro vivo, ouro, veículos e até procedimentos odontológicos.
Segundo a Polícia Federal, as fraudes ocorriam há mais de uma década e atingiram concursos da Polícia Federal, Caixa Econômica Federal, Polícias Civil e Militar, Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Banco do Brasil e o Concurso Nacional Unificado (CNU). O líder do grupo, preso no ano passado em operação anterior, faleceu na Paraíba, mas a organização continuou suas atividades até a recente desarticulação.



