Caso da PM morta: IPM revela relação conturbada e ameaças do tenente-coronel
Caso da PM morta: IPM revela relação conturbada e ameaças

Caso da PM morta: IPM revela relação conturbada e ameaças do tenente-coronel

Peritos e investigadores se reuniram nesta quarta-feira (11) para tratar do caso da soldada da Polícia Militar Gisele Alves Santana, morta com um tiro na cabeça dentro do apartamento do casal no Brás, região central de São Paulo, em 18 de fevereiro. Denúncias anônimas registradas em um Inquérito Policial Militar (IPM) obtido pela TV Globo mostram que o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto e a soldada viviam uma relação extremamente conturbada, marcada por ameaças constantes, perseguição e episódios de instabilidade emocional.

Documento da PM relata histórico de ameaças e temor

Os relatos, que também descrevem comportamentos abusivos do oficial, foram formalizados em portaria da Polícia Militar dias após a morte da soldada. A portaria do Inquérito Policial Militar, instaurada no dia 20 de fevereiro, registra que o oficial “possui instabilidade emocional”, sendo necessário investigar “as objetivas de perseguição, indisciplina e ameaças” sofridas pela soldada. O documento afirma ainda que Gisele “vivia sob o temor manifestado” diante das atitudes do tenente-coronel, segundo denúncias anônimas, e que tais relatos foram “presenciados por diversas testemunhas”.

O documento detalha ainda que:

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  • O casal tinha um relacionamento instável e conflituoso
  • A soldada vivia sob temor e ameaças por parte do tenente-coronel
  • As atitudes do oficial causavam “temor manifestado” pela policial
  • O suposto suicídio teria ocorrido com a arma de fogo do oficial

A família de Gisele já havia relatado anteriormente que o casal brigava muito e que ele a perseguia constantemente. Diante dos indícios, o documento determinou apuração rigorosa para esclarecer as circunstâncias da morte, destacando a necessidade de investigação “diante do contexto e dos indícios de possíveis infrações penais militares”.

Laudo aponta lesões e contradições na versão oficial

A reunião de peritos ocorreu após o laudo necroscópico indicar que Gisele apresentava lesões contundentes no rosto e no pescoço, compatíveis com pressão digital e marcas de unhas. Peritos afirmam que há sinais de que ela desmaiou antes de ser baleada e que não esboçou defesa. O corpo da policial chegou a ser exumado no sábado (7) para novos exames no IML Central, incluindo tomografia completa.

Na terça-feira (10), a Justiça redistribuiu o caso para uma Vara do Tribunal do Júri, responsável por analisar crimes contra a vida, indicando a gravidade das evidências encontradas. Investigadores destacam vários pontos que contradizem a versão apresentada por Geraldo Neto:

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  1. Horário do disparo: Uma vizinha afirmou ter ouvido um estampido às 7h28. A primeira ligação do oficial ao serviço de emergência ocorreu às 7h57, cerca de 30 minutos depois. Na ligação, ele afirmou: “Minha esposa é policial feminina. Ela se matou com um tiro na cabeça.” Minutos depois, às 8h05, ligou para os bombeiros e disse que ela ainda respirava. As equipes chegaram às 8h13.
  2. Arma “bem encaixada”: Um socorrista relatou que a arma estava “bem encaixada” na mão da soldada de uma maneira incomum em casos de suicídio. O sangue já estava coagulado quando as equipes chegaram ao local.
  3. Banho que não se confirma: O tenente-coronel disse que estava no banho quando ouviu o disparo, mas bombeiros relataram que ele estava seco, não havia pegadas ou marcas de água, o chuveiro estava ligado mas sem vestígios de uso, e nenhum dos dois aparentava ter tomado banho recentemente.
  4. Conduta no local: Socorristas afirmaram que o oficial não demonstrava desespero, falava de forma calma ao telefone, e não tinha manchas de sangue, sugerindo que não prestou socorro imediato à vítima.

Ligação para desembargador e entrada de policiais no apartamento

Entre as ligações feitas pelo tenente-coronel na manhã da morte, chamou atenção um contato ao desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, que chegou ao prédio às 9h07. Ele subiu ao apartamento com Geraldo e deixou o local às 9h18. Às 9h29, o oficial apareceu de roupa trocada. O advogado da família da soldada cobra explicações sobre a presença do magistrado no local do crime.

Uma câmera de segurança registrou a entrada e saída de três policiais cerca de 10 horas após a morte, às 17h48 do dia 18. Segundo testemunhas, elas foram ao apartamento para limpar o local. As três ficaram cerca de 50 minutos e não saíram com objetos aparentes. Elas serão ouvidas na investigação que segue em andamento.

Reunião conclui por prisão temporária

Na quarta-feira (11), representantes da Corregedoria da PM e delegados da Polícia Civil se reuniram e concluíram que as provas reunidas até o momento são suficientes para embasar um pedido de prisão temporária do tenente-coronel. Ele estava no apartamento no momento da morte e foi quem acionou o socorro. O caso, inicialmente tratado como suicídio, passou a ser investigado como morte suspeita com indícios de crime.

O que dizem as defesas

A defesa do tenente-coronel afirmou anteriormente que ele não é investigado, suspeito ou indiciado formalmente, tem colaborado com as autoridades e está à disposição para esclarecimentos. Já a defesa do desembargador informou que ele foi ao local como amigo do oficial e prestará todos os esclarecimentos necessários à investigação.

O caso continua sob investigação detalhada, com novas diligências sendo realizadas para esclarecer completamente as circunstâncias da morte da soldada Gisele Alves Santana.