Cão comunitário Orelha é torturado e morto por adolescentes em Florianópolis
Orelha, um cão comunitário que viveu por cerca de dez anos no bairro Praia Brava, em Florianópolis, foi brutalmente espancado por adolescentes e não resistiu aos ferimentos, sendo submetido à eutanásia. Descrito por moradores como um animal dócil e brincalhão, Orelha era cuidado coletivamente pela comunidade local, tornando-se uma figura querida e simbólica na região.
Sua morte violenta desencadeou uma onda de protestos e indignação que ultrapassou os limites do bairro, mobilizando redes sociais e gerando debates sobre a proteção animal e o impacto emocional de tais tragédias. Como psicoterapeuta e pesquisadora especializada no vínculo entre pessoas e animais, observo frequentemente o profundo impacto dessas conexões emocionais e o sofrimento envolvido em seu rompimento.
O papel social do animal comunitário e a perda coletiva
Como um cão comunitário, Orelha representava uma responsabilidade compartilhada pelos moradores da Praia Brava. Pesquisas indicam que animais nessa condição ocupam um lugar significativo na vida das pessoas, atuando como elos sociais que fortalecem a coesão comunitária. Eles aumentam a sensação de familiaridade em espaços públicos e contribuem para um maior senso de pertencimento social.
O engajamento espontâneo ou organizado em atos de cuidado ao animal também favorece um senso de responsabilidade social compartilhado. Com o tempo, esses animais se integram à organização cotidiana e à identidade emocional das pessoas, sustentando redes de práticas coletivas. Orelha, por exemplo, criava micro vínculos cotidianos que promoviam a coesão social, tornando-se uma referência afetiva para a comunidade.
A perda de Orelha é percebida por muitos como a destruição de um elemento de conexão, exacerbada pela forma violenta de sua morte, que pode abalar a sensação de segurança em espaços coletivos. Em contextos de impunidade, essa vulnerabilidade tende a se intensificar, ampliando o trauma coletivo.
Luto coletivo e reações emocionais intensas
Casos de violência extrema, como o de Orelha, mobilizam processos coletivos interligados, incluindo o luto compartilhado. A perda é sentida não apenas por quem convivia diretamente com o animal, mas também por aqueles que o conheceram através de notícias e redes sociais. Reações emocionais intensas são comuns diante de violências que rompem o senso de segurança, podendo ser amplificadas pela exposição repetida a conteúdos violentos nas mídias.
A identificação com o caso, como pensar "Poderia ser meu cachorro", aumenta o vínculo emocional e pode ativar respostas fisiológicas, como coração acelerado, tensão muscular, irritabilidade e dificuldades para dormir ou focar. Além disso, a morte de Orelha pode reativar memórias pessoais de violência, tornando a experiência mais próxima emocionalmente. É compreensível que a comunidade se sinta abalada e mobilizada por tal evento chocante.
Cuidados emocionais e transformação da indignação em ação
Diante de casos como esse, é crucial transformar a indignação em ação sem negligenciar o cuidado emocional. Oferecer suporte não deve ser apenas uma iniciativa individual, mas uma responsabilidade pública. Algumas medidas importantes incluem:
- Limitar a exposição a conteúdos violentos relacionados ao caso, pois a exposição excessiva pode intensificar o sofrimento.
- Prestar atenção ao corpo, observando sinais como tensão, respiração curta e sentimentos intensos que interferem no dia a dia.
- Incluir pausas e autocuidado para regular o sistema nervoso e manejar a sobrecarga emocional.
- Compartilhar sentimentos com uma rede de apoio social, ajudando a entender e processar as emoções.
- Transformar indignação em ação, apoiando causas de proteção animal, cobrando políticas públicas e mobilizando-se de forma saudável para reduzir a sensação de impotência.
Mobilização e apoio social para fortalecer a resiliência
Eventos emocionalmente impactantes, como a morte de Orelha, podem fortalecer conexões sociais, aumentar a empatia e gerar mobilização coletiva. Para isso, é essencial o apoio social e um senso compartilhado de propósito. Iniciativas institucionais de suporte psicológico à população são fundamentais para ajudar a comunidade a atravessar esses momentos difíceis.
Quando enfrentados coletivamente e por meio de ações concretas, tais eventos podem favorecer processos de resiliência. A mobilização em torno da história de Orelha tem o potencial de fortalecer ações coletivas e incentivar respostas institucionais efetivas contra a violência animal, embora nada disso diminua a gravidade do ocorrido.
Renata Roma não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.