El Niño pode se intensificar e trazer chuva acima da média ao Sul do Brasil
El Niño pode se intensificar e trazer chuva acima da média

O fenômeno El Niño pode se intensificar nos próximos meses, atingindo níveis de forte a muito forte, com impacto direto no regime de chuvas no Sul do Brasil. A tendência, segundo análise da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), é de volumes acima da média na região.

O que é o El Niño?

O El Niño e a La Niña são as duas fases do mesmo fenômeno climático, chamado ENOS (El Niño-Oscilação Sul). O El Niño é caracterizado pelo aquecimento maior ou igual a 0,5°C das águas do Oceano Pacífico equatorial. Esse aquecimento altera a circulação dos ventos e a distribuição de calor e umidade ao redor do globo, impactando os padrões de clima em diversas partes do mundo.

Estudo e projeções

O cenário foi traçado pelo Centro Interinstitucional de Observação e Previsão de Eventos Extremos (Ciex), que reúne dados e projeções de centros internacionais de pesquisa climática para avaliar a evolução do fenômeno. A partir desse cruzamento de informações, o grupo desenvolve análises integradas para indicar possíveis cenários e orientar ações preventivas.

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De acordo com a coordenadora do Ciex, Elisa Fernandes, o objetivo é antecipar respostas e apoiar o planejamento dos órgãos públicos. "Nós deixamos para trás um funcionamento reativo, que foi o que aconteceu em maio de 2024. Nós reagimos ao fenômeno que se configurou naquele momento para agora conseguirmos nos antecipar e contribuir para a definição de ações preventivas", explica Elisa.

Volumes elevados de chuva

Apesar da classificação que pode chegar à categoria de "muito forte", os pesquisadores comentam que não é possível afirmar, neste momento, que o fenômeno vá provocar um novo desastre climático. As projeções indicam uma tendência de volumes elevados de chuva, mas ainda não há precisão sobre a distribuição dessas precipitações, nem sobre a intensidade ou o período em que devem ocorrer.

O meteorologista Ricardo Gotuzzo reforça que previsões mais detalhadas, como impactos em áreas específicas ou a forma como a chuva vai se concentrar ao longo do tempo, dependem de monitoramento contínuo. "Fazer qualquer afirmação em uma região muito pequena, uma bacia hidrográfica específica, ou ainda da intensidade do volume de chuva, [...] é uma coisa que exige um monitoramento contínuo das previsões de tempo a curto prazo", comenta Gotuzzo.

Prevenção e moradia

Diante desse cenário, algumas medidas já começam a ser planejadas em Rio Grande. Entre elas estão: a recuperação de sistemas de drenagem e a retirada de famílias de áreas consideradas vulneráveis a alagamentos. No bairro Vila da Quinta, por exemplo, 55 moradias estão em construção para reassentar moradores que viviam em locais de risco.

De acordo com o secretário de Planejamento, Habitação e Regularização Fundiária, Glauber Gonçalves, a principal indicação das reuniões com órgãos técnicos é a possibilidade de maiores acumulados de chuva na primavera e no verão. Ele destaca que as ações em andamento buscam reduzir a vulnerabilidade da população diante dessas condições. "São projetos que foram criados em função, justamente, do fato de que estamos muito vulneráveis a essas variáveis climáticas e a nossa população sofre muito com isso", pontua Gonçalves.

Impactos do El Niño no Brasil

No Brasil, os efeitos do El Niño são distintos: enquanto provoca secas nas regiões Norte e Nordeste, aumenta significativamente o volume e a frequência das chuvas na Região Sul. A relação entre El Niño e eventos extremos no Sul do Brasil também aparece em um estudo do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, publicado em 2025 na revista científica Communications Earth & Environment.

A pesquisa analisou 45 anos de dados de vazão de rios em 788 estações de monitoramento da América do Sul e concluiu que o fenômeno aumenta a probabilidade de cheias na Bacia do Prata, região que abrange parte do território gaúcho. Durante episódios de El Niño, a chance de enchentes nessa área pode crescer em até 160%.

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Os pesquisadores ressaltam, porém, que o El Niño não age sozinho. O estudo aponta que enchentes e secas dependem de uma combinação de fatores, como o comportamento da chuva, a umidade do solo, o nível anterior dos rios e outras condições meteorológicas. Na prática, o fenômeno funciona como um amplificador do risco, e não como causa única de um desastre.

Histórico de El Niños

Desde 2006, uma sequência de episódios de El Niño vem mudando cada vez mais o clima do planeta, ainda quando são considerados fracos ou moderados, aumentando o risco dos extremos (secas, enchentes e ondas de calor).

  • 2006–2007: El Niño fraco a moderado.
  • 2009–2010: El Niño moderado.
  • 2014–2016: El Niño muito forte, ligado a recordes de calor e extremos mais frequentes.
  • 2018–2019: El Niño fraco a moderado, mais curto e com impactos mais limitados.
  • 2023–2024: El Niño forte, um dos mais intensos já registrados, associado a novos recordes de calor.

Diante desse cenário, especialistas reforçam que o novo episódio de El Niño exige atenção e preparação contínua, já que o fenômeno pode aumentar o risco de enchentes, mas não determina, sozinho, a repetição de uma tragédia como a de 2024.