Área de Proteção Ambiental do DF pode emitir 104,5 mil toneladas de CO2 com urbanização
Área protegida do DF pode emitir 104,5 mil t de CO2 com urbanização

Urbanização de área protegida no DF pode liberar 104,5 mil toneladas de CO2 e ameaçar nascentes

Um estudo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) obtido com exclusividade pelo g1 e pela TV Globo revela que a eventual urbanização da Serrinha do Paranoá, área verde incluída pelo governo do Distrito Federal na lei de socorro financeiro ao Banco de Brasília (BRB), pode liberar imediatamente cerca de 104,5 mil toneladas de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera. Essa estimativa considera apenas a decomposição da vegetação nativa pela ação de bactérias e fungos, sem incluir os impactos adicionais do asfalto, construções e atividade humana no local.

Impacto ambiental subestimado e perda de captação de carbono

O levantamento do IPAM alerta que o dano ambiental real seria ainda maior, pois não quantifica o carbono que a área deixaria de captar ao ser derrubada. Com a vegetação eliminada, cessaria o processo de fotossíntese que remove gás carbônico da atmosfera, agravando o problema das mudanças climáticas. A Serrinha do Paranoá, situada entre o Varjão e a Barragem do Paranoá, abriga 119 nascentes fundamentais para a irrigação de córregos como Urubu, Jerivá, Palha e Tamanduá, essenciais para manter a vazão do Lago Paranoá mesmo durante secas extremas.

Área prioritária para recarga de aquíferos sob risco

O estudo destaca que as áreas incluídas na lei correspondem aos 20% mais preservados da Serrinha, contrariando a ideia de que se trata de terrenos degradados. Classificada pelo Zoneamento Ecológico-Econômico do DF como Área Prioritária para a Recarga de Aquíferos, a manutenção da cobertura vegetal é crucial para a segurança hídrica de um dos principais reservatórios de abastecimento público da capital. Paulo Moutinho, pesquisador sênior do IPAM, afirma que a área já sofre com especulação imobiliária, grilagem de terras e ocupações ilegais.

"É difícil não ocorrer desmatamento e urbanização [na área à venda]. Quem comprar a área vai dar um empurrão na urbanização do local", alerta Moutinho, ressaltando o impacto da perda de vegetação no contexto das mudanças climáticas. Ele explica que o Cerrado enfrenta uma redução drástica de águas superficiais, parcialmente devido ao desaparecimento de nascentes, tornando-as vitais para o abastecimento quando as chuvas falham.

Contexto legal e opções para os imóveis públicos

A lei aprovada pela Câmara do DF e sancionada pelo governador Ibaneis Rocha (MDB) em 10 de setembro permite que o governo do DF e o BRB utilizem imóveis públicos, incluindo a Serrinha do Paranoá, de várias formas para reforçar o patrimônio do banco:

  • Transferir diretamente os imóveis para o BRB como ativos imobilizados
  • Vender os imóveis e incorporar o dinheiro ao caixa
  • Utilizar outras medidas financeiras, como empréstimos de até R$ 6,6 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Crédito ou instituições financeiras

A Serrinha, com mais de 12 mil hectares, tem parte de seus 716 hectares destinados a essas operações, enquanto abriga entre 60 e 65 mil pessoas em pequenas propriedades rurais nos núcleos como Boa Esperança, Taquari e Bananal. Um estudo da Secretaria de Agricultura do DF indica que uma em cada cinco nascentes da região já precisa de recuperação ambiental devido a desmatamento, erosão e contaminação, situação que pode se agravar com a urbanização.