Relatório da SOS Mata Atlântica revela piora na qualidade da água em rios de 14 estados brasileiros
Qualidade da água piora em rios de 14 estados, mostra relatório

Relatório da SOS Mata Atlântica revela piora na qualidade da água em rios de 14 estados brasileiros

A Fundação SOS Mata Atlântica divulgou em março de 2026 o relatório "Observando os Rios 2026", que apresenta uma análise abrangente da saúde das bacias hidrográficas do país. O estudo revela uma situação preocupante: a qualidade da água em rios de 14 estados brasileiros apresentou piora significativa, com apenas 3% das amostras coletadas em 2025 classificadas como boas - o menor índice desde o início da série histórica em 2014.

Piauí mantém estagnação na qualidade hídrica

No Piauí, o relatório mostra que o estado manteve a qualidade da água de seus rios no nível "regular", repetindo exatamente o mesmo resultado do ano anterior. Segundo especialistas da fundação, este desempenho indica uma clara estagnação e a falta de ações mais robustas para recuperar os recursos hídricos do estado.

O Piauí concentra 75% da área total da Bacia do Rio Parnaíba, uma das mais importantes bacias hidrográficas do Nordeste brasileiro. Apesar desta relevância estratégica, o estado não tem conseguido avançar na melhoria da qualidade de suas águas.

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Desmatamento e emergência climática agravam cenário

O projeto "Observando os Rios" conta com voluntários que monitoram pontos estratégicos em áreas de transição e em cidades que ainda preservam remanescentes da Mata Atlântica. A fundação alerta especificamente para o Piauí porque o estado lidera os índices de desmatamento do bioma em áreas de transição.

A perda de vegetação reduz drasticamente a capacidade dos rios de reter sedimentos e de regular o fluxo de água, criando um ciclo vicioso de degradação ambiental. O relatório destaca ainda que a emergência climática agrava este cenário já preocupante, com secas intensas e inundações alterando tanto a quantidade quanto a qualidade da água disponível.

Metodologia e resultados alarmantes

O estudo utiliza o Índice de Qualidade da Água (IQA), que avalia 16 parâmetros definidos pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). Ao longo de 2025, voluntários coletaram amostras mensais em 128 rios que cortam áreas de Mata Atlântica em todo o país.

Os resultados são considerados extremamente preocupantes pelos especialistas:

  • Apenas três pontos foram classificados como "bons" em 2025: Rio Betume (Sergipe), Rio Piraí (São Paulo) e Rio Água Limpa (São Paulo)
  • 78% das amostras foram classificadas como regulares
  • 15% foram consideradas ruins
  • 3% foram avaliadas como péssimas
  • Nenhuma amostra atingiu a categoria "ótima"

Falta de saneamento e participação social

"É um estado de estagnação. Ainda tem muito esgoto, principalmente doméstico, caindo na água dos nossos rios", afirma Gustavo Veronesi, coordenador da SOS Mata Atlântica. A fundação estima que aproximadamente 35 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à água potável em todo o país.

Bruno Waldman, outro especialista envolvido no estudo, complementa: "Falta saneamento, falta educação ambiental, mas, em especial, falta a participação da sociedade em acompanhar, fiscalizar e integrar ações de controle social dos nossos corpos hídricos."

Silêncio das autoridades e empresas

O g1 procurou a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Piauí para comentar a falta de políticas ambientais que, segundo o relatório, dificulta a recuperação dos rios, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.

As empresas Águas do Piauí e Águas de Teresina, responsáveis pelo abastecimento no estado e na capital, também foram procuradas para falar sobre a qualidade da água e possíveis impactos no consumo da população, mas igualmente não se manifestaram até o fechamento da matéria.

Caminhos para a recuperação

Para que o Piauí e outros estados brasileiros alcancem o nível "bom" na qualidade da água, especialistas defendem investimentos urgentes em três frentes principais:

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  1. Saneamento básico universal e eficiente
  2. Proteção rigorosa de nascentes e mananciais
  3. Recomposição extensiva de matas ciliares

O relatório enfatiza que poluir um rio é infinitamente mais rápido do que recuperá-lo, destacando a importância da ciência cidadã e da transparência nos dados sobre qualidade da água. No Piauí, voluntários aplicam kits de análise mensal para produzir informações transparentes sobre os efeitos da poluição urbana e do desmatamento.

Apesar do cenário preocupante, o estudo revela que mais de 80% dos pontos analisados apresentaram água adequada para usos múltiplos, como agricultura e indústria. No entanto, para consumo humano direto, é necessário tratamento químico rigoroso, o que aumenta os custos e a complexidade do abastecimento público.