A ciência acaba de apresentar ao mundo duas novas espécies de peixes anuais encontradas na bacia do rio Piranhas-Açu, no Rio Grande do Norte. No entanto, a descoberta já surge em tom de alerta. Denominadas Hypsolebias guararug e Hypsolebias negobispoi, esses animais habitam poças temporárias da Caatinga, ecossistema que sofre forte pressão ambiental devido à exploração de petróleo onshore e ao avanço de parques eólicos na região.
O mistério das cores invertidas
O que mais chamou a atenção dos pesquisadores durante as análises foi uma anomalia visual inédita no gênero Hypsolebias: machos apresentando padrões de cores típicos de fêmeas, e vice-versa. Morfologicamente, as espécies já se distinguiam das demais da região pela coloração, características ósseas e posição das nadadeiras, mas o polimorfismo simultâneo acendeu um alerta. A princípio, a equipe cogitou que a inversão de cores pudesse ser apenas uma fase de crescimento do animal. No entanto, o biólogo Yuri Gomes Abrantes, líder do estudo, esclarece: "Através das análises morfológicas, identificamos que o polimorfismo ocorria tanto em peixes pequenos mais jovens como em peixes já adultos, sugerindo que essa característica não desaparece ao longo do tempo".
Contaminação por petróleo como possível causa
A hipótese mais forte para essa desregulação recai sobre a água em que vivem. Análises químicas confirmaram a contaminação dos habitats por altos níveis de Hidrocarbonetos Totais de Petróleo (TPH). Em um dos locais documentados, uma bomba de extração de óleo opera a menos de 10 metros da poça de água. Questionado se já é possível afirmar cientificamente que o petróleo causa essa anomalia física e endócrina, o pesquisador é cauteloso, mas direto: "Ainda não. Contudo, a identificação de hidrocarbonetos de petróleo nos habitats dos peixes é uma evidência de que o fenótipo polimórfico pode ter relação com a contaminação". Ele adianta que novas linhas de pesquisa foram iniciadas para melhor compreender o fenômeno. Embora o impacto toxicológico exato nos embriões dessas novas espécies ainda esteja sendo testado, Abrantes lembra que pesquisas recentes no Sul do país mostraram que pesticidas causaram a perda de 55% dos embriões de peixes anuais dos Pampas logo após a eclosão.
Degradação ambiental e ameaça de extinção
Além do óleo contido na água, o avanço das instalações eólicas vizinhas exige o desmatamento da vegetação nativa, comprometendo processos ecológicos e impactando diretamente os animais. A consequência dessa degradação ambiental somada à poluição química afeta negativamente todo o ecossistema. Diante desse cenário destrutivo, a H. guararug já é considerada "Em Perigo" (EN) e a H. negobispoi é classificada como "Criticamente em Perigo" (CR). A pesquisa aponta uma falha sistêmica no poder público: os órgãos licenciadores raramente incluem peixes nos estudos técnicos ambientais, principalmente no Nordeste semiárido, onde ainda é comum pensar que a Caatinga é seca durante o ano todo.
Nomes que conectam ciência, cultura e território
Para lutar contra a invisibilidade desse ecossistema, os cientistas usaram o batismo das espécies como ferramenta de conscientização. A Hypsolebias guararug resgata o nome originário do rio Piranhas-Açu na língua Tupi-Guarani, que significa "rio dos pássaros". Já a H. negobispoi é uma homenagem direta a Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo, filósofo e mestre quilombola piauiense, falecido em 2023, que dedicou a vida a combater as desigualdades sociais e a defender os saberes ancestrais da floresta. "Os nomes cumprem um papel que vai além da taxonomia. Eles podem conectar a ciência, cultura e território", afirma Yuri Abrantes. Segundo ele, a escolha foi pensada para despertar o interesse do público, trazer visibilidade para as espécies e gerar identificação e pertencimento das comunidades com a biodiversidade.
Urgência na conservação
Para evitar que as espécies desapareçam pouco tempo após entrarem para os registros científicos, ações emergenciais são vitais. A continuidade de novos levantamentos na bacia do rio Piranhas-Açu, bem como o aprofundamento das análises em laboratório, nortearão as futuras estratégias de conservação na área. "A divulgação científica e a educação ambiental também são imprescindíveis para influenciar as políticas ambientais, principalmente as ações do órgão ambiental licenciador, que necessita tornar os estudos de licenciamento ambiental mais rigorosos", defende o cientista. Ele encerra fazendo um chamado de atenção geral: "É importante lembrar que perder biodiversidade também é perder todos os serviços ecossistêmicos que as espécies oferecem gratuitamente".



