O paradoxo da reciclagem no Brasil: invisibilidade e precariedade dos catadores
Em meio aos debates sobre como mitigar a crise climática global, o destino que damos ao lixo se apresenta como um ponto essencial e urgente. No cenário brasileiro, um paradoxo gritante se destaca: enquanto apenas 4% dos resíduos que poderiam ser reaproveitados são efetivamente reciclados, os principais pilares dessa cadeia produtiva – os catadores e catadoras de materiais recicláveis – permanecem frequentemente invisibilizados e submetidos a condições de trabalho marcadas por informalidade, precarização e ausência de direitos básicos.
Os números que revelam a importância e o abandono
Nas últimas estimativas disponíveis, referentes ao ano de 2022, os catadores somavam ao menos 800 mil pessoas em todo o território nacional – um número que, segundo projeções atuais, provavelmente já ultrapassa a marca de 1 milhão de trabalhadores. Estima-se que cerca de 90% dos materiais recicláveis que chegam à indústria tenham passado pelas mãos desses profissionais, tornando-os protagonistas indispensáveis para a economia circular no país.
Ao mesmo tempo, o Brasil ainda mantém aproximadamente 3 mil lixões em atividade, apesar da legislação determinar sua erradicação. Esses locais não apenas contaminam solos e lençóis freáticos, mas também produzem queima irregular de lixo, constituindo-se como uma das principais fontes de emissão de gases de efeito estufa, como metano (CH₄) e dióxido de carbono (CO₂), agravando em grande escala o aquecimento global.
Legislação avançada, implementação deficiente
A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), instituída pela lei 12.305 em 2010, é reconhecida como uma das legislações mais avançadas do mundo na área. Ela determinava a erradicação dos lixões em todos os municípios brasileiros até o final de 2014, prazo que foi posteriormente estendido para 2024 – meta que permanece distante da realidade atual.
A PNRS introduziu princípios importantes como a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos e a inclusão socioeconômica dos catadores. No entanto, sua implementação enfrenta entraves estruturais significativos e interesses econômicos conflitantes que dificultam a efetivação dessas diretrizes.
Organização coletiva e disputas por reconhecimento
Embora a atividade de catador seja classificada desde 2002 no Cadastro Brasileiro de Ocupações (CBO 5192-5), ela ainda carece de maior reconhecimento formal para garantir melhores direitos trabalhistas e proteção social. A forma mais acessível de alcançar esses recursos seria via organização setorial, mas apenas 5% dos catadores estão vinculados às mais de 3 mil cooperativas ou associações existentes.
Organizações como o Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) e o Movimento Eu Sou Catador (MESC) têm trajetória ativa na reivindicação por melhores condições de trabalho, maior participação nas políticas públicas e reconhecimento como atores centrais da gestão de resíduos. Sua atuação levou à aprovação de propostas legislativas importantes, como a emenda constitucional de 2013 que buscou facilitar o acesso à aposentadoria desses trabalhadores.
Retrocessos e avanços recentes
O cenário se agravou significativamente entre 2016 e 2022, período marcado por crescente precarização de vários setores do trabalho informal no Brasil. Diversas reformas governamentais impuseram perdas sucessivas no acesso a direitos sociais, incluindo a revogação de decretos federais importantes que garantiam exclusividade aos catadores para receber materiais recicláveis dos órgãos públicos e estabeleciam programas de capacitação específicos.
Em 2023, foi criado um Grupo Técnico de Trabalho para revisar essas normas, resultando nos decretos nº 11.413 e nº 11.414, que reformularam instrumentos da política de logística reversa e instituíram o Programa Pró-Catadoras e Pró-Catadores para a Reciclagem Popular. A participação de catadores, pesquisadores e representantes da indústria sinalizou uma tentativa de reconstrução do diálogo institucional.
Crise atual e desafios estruturais
Apesar dos avanços recentes, o setor enfrenta atualmente uma crise profunda. Dados da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (ABREMA) apontam baixa valorização dos materiais reciclados, insegurança tributária e escassez de crédito. Diversas empresas estão fechando, a cadeia produtiva está encolhendo e os resíduos se acumulam – muitas vezes indo parar em lixões.
Para as cooperativas de catadores, o impacto é ainda mais grave. Muitas operam com margens reduzidas e acabam ficando inadimplentes, o que as exclui do mercado, já que a regularidade fiscal é pré-requisito para concorrer a editais e acessar políticas de apoio governamentais.
Caminhos para uma economia circular justa
O debate sobre catadores e a crise climática nos leva a questionar os modos de produção e reprodução social que estruturam nossa sociedade. Para que a economia verde também seja justa, é indispensável:
- Reconhecer o protagonismo dos catadores na gestão de resíduos
- Fortalecer cooperativas e associações de catadores
- Garantir acesso a crédito e financiamento adequado
- Assegurar condições dignas de trabalho e proteção social
- Implementar políticas de recenseamento contínuo e integração
- Fortalecer a aplicação das diretrizes nacionais nos municípios
A inclusão produtiva dos catadores deve ser parte central da estratégia climática brasileira, reconhecendo que não há solução para a crise dos resíduos sem a valorização e proteção desses trabalhadores essenciais.



