Pescadores do Pantanal enfrentam crise de água potável há anos, revela expedição
Crise de água potável afeta pescadores do Pantanal há anos

Crise hídrica atinge pescadores do Pantanal em Mato Grosso

Uma expedição científica que percorreu aproximadamente novecentos quilômetros do Rio Manso até o Pantanal revelou uma situação alarmante: pescadores da maior planície alagável do planeta enfrentam dificuldades crônicas para acessar água potável há anos. O grupo, composto por vinte e cinco profissionais incluindo pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), documentou inúmeras irregularidades ambientais durante o trajeto.

Comunidades tradicionais sem acesso à água limpa

Adilson Mariano dos Santos, representante da Comunidade Padilha e pescador profissional, afirmou durante coletiva de imprensa que a realidade mudou drasticamente após a construção de barragens. "Antes da barragem, a gente vivia tomando água das nascentes, hoje não temos mais isso. Tomamos água de garrafão, antes não era assim", lamentou. Ele destacou que, anteriormente, ninguém precisava comprar água, mas agora as comunidades esperam por uma solução definitiva há anos.

Além da Comunidade Padilha, localizada em Chapada dos Guimarães, outras cinco sociedades pesqueiras enfrentam a mesma escassez em Barão de Melgaço:

  • Estirão Comprido
  • Porto Brandão
  • Croará
  • Rancharia
  • Piúva

Redução drástica da superfície de água e poluição generalizada

A promotora de Justiça Ana Luiza Ávila Peterlini de Souza, da 15ª Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente de Cuiabá, revelou dados preocupantes: a superfície de água no Pantanal sofreu uma redução de setenta por cento nos últimos anos. "Isso se reflete na qualidade de vida da população, principalmente da mais vulnerável. Estamos no Pantanal, a maior planície alagável do planeta, e as pessoas não têm acesso à água porque os rios estão poluídos ou porque não há água disponível para perfurar poços", explicou.

O grupo de profissionais identificou diversas irregularidades ambientais durante a expedição:

  1. Poluição significativa do Rio Cuiabá
  2. Descarte irregular de lixo nas margens dos rios
  3. Lançamento de esgoto sem tratamento adequado
  4. Falta completa de saneamento básico nas comunidades

Impacto das hidrelétricas no ecossistema pantaneiro

A promotora destacou ainda que os empreendimentos ao redor do Pantanal, especialmente as usinas hidrelétricas, geram impactos severos às comunidades e ao meio ambiente. "Na planície alagável do Pantanal é proibida a instalação de usinas, então no entorno sempre há tentativas de instalação de novos empreendimentos, o que acaba afetando na disponibilidade de água no Pantanal, na reprodução dos peixes e uma série de impactos", alertou.

A bacia hidrográfica do Rio Cuiabá é considerada uma região vermelha por abrigar o maior ponto de desova de peixes comerciais, como o pacu, conforme estudo da Agência Nacional de Águas (ANA). Atualmente, existem cinquenta e quatro empreendimentos hidrelétricos em Mato Grosso, sendo quarenta e sete Pequenas Centrais Hidrelétricas e Centrais Geradoras Hidráulicas, além de sete usinas hidrelétricas de maior porte.

A situação expõe um paradoxo ambiental: enquanto o Pantanal é reconhecido mundialmente por sua biodiversidade e importância ecológica, as comunidades que tradicionalmente dependem de seus recursos enfrentam dificuldades básicas de sobrevivência. A expedição serviu para documentar cientificamente problemas que os pescadores denunciam há anos, pressionando por políticas públicas que garantam acesso à água potável e preservem o frágil ecossistema pantaneiro.