Ambientalista constrói casa flutuante e escolhe viver no rio em Minas Gerais
O endereço não possui CEP nem número fixo, mas existe e é levado a sério por seu morador: "Avenida Rio Verde, número 235 km", afirma, sem hesitar, o ambientalista Ronipeterson Landim. Há quatro anos, ele vive sobre as águas do Rio Verde, em uma casa que não toca o chão, construída com as próprias mãos, peça por peça, até se transformar em lar.
Vista de fora e rotina interna
Vista de fora, a cena desperta curiosidade imediata: uma estrutura de madeira flutuando, cercada por silêncio, vento e o movimento constante da água. Por dentro, porém, a rotina é menos exótica do que parece. "É uma vida normal", resume Ronipeterson.
Da ideia ao lar: um processo gradual
A decisão de morar sobre o rio não veio por impulso, mas de uma inquietação antiga. Ronipeterson vivia na margem do Rio Verde havia quase duas décadas, mas desejava mais proximidade com a natureza. Mais do que observar o rio, queria estar dentro dele. A construção começou pelo essencial: o banheiro, priorizando o impacto ambiental. Para evitar a contaminação da água, implantou uma fossa de evapotranspiração, sistema que trata o esgoto sem devolvê-lo ao rio.
Depois disso, veio o restante, sem pressa. A casa levou cerca de 90 dias para se tornar minimamente habitável, mas nunca foi considerada totalmente pronta. "Eu não terminei. Fui fazendo aos poucos", conta. O projeto inicial tinha 36 metros quadrados. Hoje, soma 112 m², com quarto, cozinha, fogão a lenha e novos espaços que foram surgindo conforme a necessidade.
Uma casa que flutua: estrutura sustentável
Debaixo do piso, não há fundação de concreto. A estrutura é sustentada por 96 tambores de 200 litros, responsáveis pela flutuação. Acima deles, um trabalho quase artesanal: o chão foi montado com 770 tábuas reaproveitadas de paletes. Cada pedaço de madeira precisou ser desmontado manualmente, com cuidado para não rachar. "Deu muito trabalho soltar cada madeirinha", lembra. O resultado é uma casa construída a partir do reaproveitamento de materiais, o que ajudou a reduzir custos, mas exigiu tempo, paciência e dedicação.
Convivência com a natureza: privilégios e desafios
Se a vista é privilegiada, a convivência com a natureza também é direta, em todos os sentidos. Capivaras, lontras, peixes e patos selvagens fazem parte da rotina. Às vezes, são mais presentes do que vizinhos. Nem tudo, porém, é contemplação. "Tem o borrachudo", diz, referindo-se ao inseto comum em áreas ribeirinhas e que pode tornar o dia menos poético. Ainda assim, o balanço é positivo. O que poderia ser isolamento se transforma, para ele, em tranquilidade.
Viver no rio: escolha e permanência
A casa flutuante não é um experimento temporário, mas uma escolha de vida. Foi ali que Ronipeterson acendeu o fogão a lenha pela primeira vez, há quatro anos, um marco que considera o início oficial da nova rotina. Desde então, não cogita voltar atrás. "Às vezes a gente pensa que precisa de mais conforto. Mas minha paz de espírito está aqui", afirma. Entre idas e vindas da travessia, a casa segue firme, acompanhando o ritmo da água, sem pressa de chegar a lugar algum. Porque, para quem escolheu viver no rio, o destino já é o caminho.



