Os Estados Unidos registraram um aumento preocupante de 2,4% nas emissões de gases de efeito estufa em 2025, interrompendo uma sequência de quedas observada nos anos anteriores. A informação é de um relatório preliminar do centro de pesquisas Rhodium Group, divulgado nesta terça-feira, 13 de janeiro de 2026. A análise aponta um trio de fatores como responsáveis pela reversão da tendência: um inverno mais rigoroso, o retorno do carvão à matriz energética e o avanço exponencial da Inteligência Artificial.
O trio que impulsionou a poluição
O relatório, baseado em dados preliminares de atividade energética, detalha os motivos por trás do salto nas emissões. Em primeiro lugar, as temperaturas mais baixas do inverno elevaram significativamente a demanda por aquecimento em edifícios. Esse setor viu um aumento de 6,8% nas emissões diretas provenientes do uso de combustíveis para climatização.
No setor de geração de energia, o cenário também foi negativo. O carvão, considerado o combustível fóssil mais poluente, voltou a ganhar espaço. O motivo foi a elevação nos preços do gás natural, usado para aquecimento e exportado como Gás Natural Liquefeito (GNL). Com isso, a eletricidade gerada a partir do carvão foi 13% maior em 2025 do que no ano anterior, resultando em um aumento de 3,8% nas emissões do setor elétrico.
A pegada de carbono da Inteligência Artificial
Um fator moderno e de crescimento explosivo também entrou na equação: a Inteligência Artificial (IA). A operação de grandes data centers, necessários para treinar e rodar modelos de IA complexos, além das operações de mineração de criptomoedas, demandam quantidades colossais de energia. "No setor elétrico, isso se deve ao aumento contínuo da demanda por parte de centros de dados, operações de mineração de criptomoedas e outros grandes consumidores", explicou Michael Gaffney, analista do Rhodium Group e coautor do relatório, em entrevista à agência AFP.
Estima-se que, só em 2025, as emissões geradas para alimentar a infraestrutura de IA nos EUA equivaleram a quatro vezes as emissões anuais de uma cidade do porte de São Paulo.
Metas climáticas em risco e o cenário político
O dado de 2025 é particularmente alarmante porque antecede a implementação de políticas pró-combustíveis fósseis assinadas pelo presidente Donald Trump após seu retorno ao poder. Isso significa que a tendência de alta pode se intensificar nos próximos anos.
A meta climática estabelecida pelo ex-presidente Joe Biden, de reduzir as emissões entre 50% e 52% até 2030 (em relação aos níveis de 2005), parece cada vez mais distante. Desde que reassumiu, a administração Trump tem favorecido a indústria de petróleo e gás, tentado barrar projetos de energia solar e eólica e revogado incentivos para veículos elétricos.
Os Estados Unidos, segundo maior poluidor do mundo atrás apenas da China, vinha em uma trajetória de redução média de cerca de 1% ao ano desde o pico de 2007. Essa tendência, associada à troca do carvão por gás natural, ganhos de eficiência e expansão das renováveis, foi claramente interrompida em 2025. O relatório do Rhodium Group serve como um alerta de que, sem políticas consistentes, o caminho para a descarbonização da maior economia do mundo será cheio de obstáculos e retrocessos.