Diante de projeções que indicam um aumento global de 10% no consumo de carne bovina até 2033, especialistas buscam soluções urgentes para conciliar produção e preservação. Uma resposta inovadora vem do veterinário Luís Fernando Laranja Fonseca, que abandonou uma carreira acadêmica de prestígio na USP para desenvolver, na prática, métodos de criação que minimizam o impacto ambiental da pecuária.
Da teoria à linha de frente do desmatamento
Em 2002, aos 35 anos, Fonseca deixou seu cargo de professor e pesquisador na Universidade de São Paulo. O incômodo com a distância entre a ciência e a realidade da destruição da Amazônia o levou a uma "guinada radical". Ele se mudou com a família para Alta Floresta, no Mato Grosso, onde passou seis anos imerso na região. Sua primeira iniciativa foi a empresa Ouro Verde, trabalhando com comunidades indígenas na extração de castanha-do-pará.
Embora bem-sucedido, o negócio mostrou um impacto limitado perante a escala do desmatamento. Essa percepção o levou a fundar a Kaeté Investimentos, para captar recursos para negócios de impacto na Amazônia, e, posteriormente, em 2019, a holding Caaporã. Hoje, a empresa administra 20 mil hectares em seis fazendas nos estados do Mato Grosso, Tocantins e Bahia.
O método que transforma pastagens degradadas
O cerne da solução proposta por Fonseca desafia o modelo tradicional de pecuária extensiva, predominante na Amazônia. Seu método começa pela recuperação de pastagens degradadas. Nessas áreas, o solo pobre sustenta um capim com baixo valor nutricional, fazendo com que o gado leve cerca de quatro anos para atingir o peso de abate.
A técnica aplicada pela Caaporã envolve o plantio de árvores e a introdução de leguminosas, como o amendoim forrageiro, no pasto. Essas plantas fixam nitrogênio no solo naturalmente, reduzindo a necessidade de fertilizantes químicos. A sombra das árvores diminui o estresse térmico do gado, e a melhor nutrição acelera o crescimento.
Com isso, os animais atingem o ponto de abate em aproximadamente dois anos – metade do tempo convencional. "Se você tem um boi que engorda com quatro anos, ele fica quatro anos literalmente arrotando metano", explica Fonseca, destacando a redução direta na emissão desse potente gás de efeito estufa.
Impacto mensurável e obstáculos a superar
Os resultados são concretos: enquanto cada quilo de carne produzido no método tradicional emite cerca de 35 kg de CO2 equivalente, o método da Caaporã reduz essa emissão para aproximadamente 20 kg – uma queda de mais de 40%. André Pereira de Carvalho, pesquisador da FGV, classifica o trabalho dentro do campo da agricultura regenerativa, que alia produção de alimentos a serviços ambientais.
No entanto, Fonseca reconhece os desafios para ampliar a adoção dessas práticas. O acesso a conhecimento técnico especializado e o alto custo inicial para recuperar solos são barreiras significativas. Além disso, persiste uma resistência cultural entre pecuaristas acostumados ao modelo extensivo. "O produtor fala: 'Eu sei fazer? Sei. Dinheiro eu tenho? Tenho. Mas não quero fazer'", relata.
Para viabilizar economicamente o modelo, a Caaporã estuda a venda de créditos de carbono, desenvolvendo uma metodologia própria com a certificadora Verra. Grandes players do setor já demonstram interesse. A Minerva Foods, uma das maiores exportadoras de carne do país, compra parte da produção e promove práticas similares entre seus fornecedores, vendo nelas uma estratégia para uma pecuária de baixo carbono.
Apesar dos avanços, a desconfiança sobre a cadeia produtiva persiste. Dados do aplicativo Do Pasto ao Prato indicam que apenas 54% da carne bovina da Amazônia vendida no Brasil tem desempenho de sustentabilidade adequado. O caminho para uma pecuária verdadeiramente sustentável, que possa atender à crescente demanda mundial sem devastar biomas, passa necessariamente por inovações como a de Fonseca, mas depende de uma transformação profunda e ampla no setor.