Fenômeno 'terras caídas' avança no Amazonas e moradores deslocam casas para sobreviver
Terras caídas no AM: moradores movem casas para fugir do rio

Fenômeno das 'terras caídas' avança no interior do Amazonas e força adaptação radical de moradores

O avanço das águas durante a cheia dos rios no Amazonas tem provocado um fenômeno geológico temido pelas populações ribeirinhas: as chamadas "terras caídas". Este processo de desmoronamento de barrancos carrega consigo pedaços inteiros das encostas, altera o curso natural das margens fluviais e coloca em risco permanente casas, plantações e o modo de vida de centenas de famílias. Na zona rural do município de Careiro da Várzea, localizado no coração do estado, comunidades convivem anualmente com esta realidade implacável.

Histórias sendo apagadas pelas águas do maior rio do mundo

Na comunidade da praia da Justina, o Rio Amazonas já apagou fisicamente parte da história de gerações inteiras. O agricultor José Guedes relata que, desde a chegada de seus parentes à região em 1954, aproximadamente quinhentos metros de terreno familiar foram consumidos pela força das águas. "É uma situação extremamente difícil. Só para quem tem muita coragem consegue enfrentar. Quando a moradia fica próxima de igarapés, o risco se multiplica. Durante a cheia, a correnteza simplesmente arrasta tudo, inclusive as casas", descreveu emocionado.

Segundo a geóloga Iris Celeste Nascimento Bandeira, especialista em processos fluviais, o fenômeno é praticamente inevitável em diversos trechos do curso amazônico. "O Rio Amazonas é o maior do planeta em termos de vazão e velocidade de correnteza. Sua potência hidráulica é colossal. Pode haver toda a vegetação de proteção possível, mas eventualmente a força da água supera qualquer barreira natural", explicou a pesquisadora, destacando a magnitude das forças naturais em jogo.

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Arquitetura adaptativa: casas de madeira e soluções engenhosas

Nas comunidades afetadas, praticamente todas as construções são feitas em madeira - uma escolha material que se revela estratégica. Esta característica permite que as moradias sejam desmontadas peça por peça ou, em casos mais ousados, arrastadas inteiras para locais considerados mais seguros. Diante do avanço inexorável do rio, os moradores desenvolveram duas estratégias principais de sobrevivência: desmontar completamente as estruturas para reconstruí-las em áreas mais distantes da margem, ou deslocar as casas em sua totalidade utilizando trilhos improvisados.

O carpinteiro e pescador Janderson França Guedes, filho de José, optou pela segunda técnica. Ele dedicou semanas preparando meticulosamente a estrutura necessária para mover sua própria residência. "Nós fixamos tocos robustos no solo e alinhamos cuidadosamente as madeiras que servirão como trilhos. Normalmente, precisamos de cerca de cem metros desses trilhos improvisados, que demandam uma semana inteira de trabalho para serem construídos. O deslocamento em si geralmente ocorre em um único dia", detalhou o experiente morador.

Janderson adquiriu seu conhecimento através da prática direta. "A melhor escola que existe é a própria vida. A primeira casa que eu movi foi a minha, em 2021. Desde então, venho aperfeiçoando a técnica e ajudando outros moradores", compartilhou, demonstrando como o saber tradicional se constrói na relação direta com o ambiente.

Trabalho coletivo em meio à tensão e incerteza

Para a família de Janderson, esta será a terceira vez desde 2022 que sua casa será deslocada. Desta vez, o objetivo é mover a estrutura aproximadamente duzentos metros para dentro do terreno, distanciando-a definitivamente do alcance destrutivo do rio. O processo precisa ser realizado em etapas, devido à limitação de recursos como madeira adequada.

No dia marcado para a mudança, a dona de casa Maria do Carmo Rodrigues, matriarca da família, não conseguia disfarçar a apreensão. "Dormi muito mal esta noite. A gente fica extremamente nervosa, com medo constante de que algo dê errado durante o processo", confessou, com a voz embargada pela emoção. A principal dúvida que pairava era se haveria mão de obra suficiente para a tarefa hercúlea.

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Contudo, conforme as horas passavam, vizinhos começaram a chegar espontaneamente. "Aqui formamos uma comunidade verdadeiramente unida. Ninguém trabalha por dinheiro nessas situações; o que move cada um é a pura amizade e solidariedade", afirmou o pescador Sebastião Duarte Guedes, enquanto se preparava para o esforço coletivo.

União comunitária contra a força bruta da natureza

Reunindo quase trinta pessoas, os moradores deram início ao complexo deslocamento da casa. Para facilitar o movimento sobre os trilhos de madeira, utilizaram sabão e óleo queimado como lubrificantes naturais. O terreno irregular - composto por areia, desníveis acentuados e áreas parcialmente alagadas - transformou a operação em um verdadeiro desafio logístico.

Curiosamente, mulheres e crianças permaneceram dentro da casa durante todo o trajeto. "É uma sensação profundamente estranha. Parece que estamos caindo constantemente, mas é preciso manter a cabeça no lugar e confiar no trabalho de todos", descreveu a cabeleireira Maria Luzia, que vivenciou a experiência em primeira mão.

O deslocamento completo demandou aproximadamente três horas, incluindo pausas estratégicas, esforço físico intenso e até momentos de descontração, com música ambiente e refeições compartilhadas entre todos os participantes. Para os moradores, experiências como esta reforçam continuamente o espírito comunitário que sustenta suas vidas. "Aqui todo mundo se ajuda genuinamente. É a união que realmente faz a força necessária para enfrentarmos a natureza", resumiu filosoficamente o pescador Raimundo José Nunes Guimarães, enquanto observava a casa finalmente reassentada em seu novo local.