São Sebastião: 3 anos após tragédia, 70% de recuperação, mas invasões e envenenamento ameaçam avanços
São Sebastião: 3 anos após tragédia, 70% recuperado, mas riscos persistem

São Sebastião: três anos após tragédia, avanços na recuperação enfrentam novos desafios ambientais

Três anos se passaram desde a inundação histórica que devastou o Litoral Norte paulista durante o Carnaval de 2023, e um balanço detalhado revela um cenário de conquistas significativas, mas também de alertas urgentes que colocam em risco tanto os avanços alcançados quanto a segurança da população local.

Recuperação ambiental atinge 70% da área afetada

De acordo com estudo realizado pelo Instituto Conservação Costeira (ICC), organização que já atuava na região antes da tragédia, aproximadamente 70% da área impactada pelos deslizamentos foi recuperada. Este resultado expressivo é fruto de um esforço conjunto entre sociedade civil, empresas parceiras e o poder público estadual.

Logo após o desastre, foram identificadas 853 cicatrizes de deslizamento distribuídas por sete praias da região. Estas áreas foram tratadas com técnicas especializadas de restauração ecológica, contando com o apoio fundamental de empresas como a Ambipar e a Concessionária Rodovia dos Tamoios, além da atuação direta do Governo do Estado de São Paulo por meio da Fundação Florestal.

O trabalho concentrou-se em três frentes principais: estabilização das encostas, melhoria da estrada Rio-Santos e recuperação da cobertura vegetal da Mata Atlântica, essencial para a proteção ambiental da região.

Barra do Sahy: epicentro da recuperação e avanços sociais

O maior esforço de recuperação concentrou-se na Barra do Sahy, reduto turístico que foi uma das áreas mais severamente atingidas pela tragédia. Além da significativa restauração ambiental, houve um avanço notável na dimensão social do processo de reconstrução.

Novas moradias foram construídas para abrigar famílias que viviam em áreas de alto risco e perderam suas casas após os deslizamentos. Esta realocação estratégica reduziu substancialmente a exposição direta dessas comunidades a novos eventos climáticos extremos, sendo considerada hoje um dos principais legados positivos do processo de reconstrução pós-tragédia.

Atualmente, o ICC integra o Conselho Estadual de Mudanças Climáticas de São Paulo e mantém programas contínuos de educação climática e ambiental, voltados tanto para comunidades locais quanto para escolas da região. Estas iniciativas educacionais são fundamentais, mas especialistas alertam que se mostram insuficientes se não forem acompanhadas por políticas públicas mais estruturadas e abrangentes.

Alertas urgentes: invasões e envenenamento ambiental ameaçam conquistas

Apesar dos avanços documentados, o cenário atual ainda inspira cautela extrema e evidencia que há muito trabalho pela frente para garantir a segurança permanente da população. Nas demais praias afetadas pela tragédia, a situação permanece particularmente preocupante.

"A maior parte da população segue vivendo em áreas indevidas, muitas delas ambientalmente frágeis ou sujeitas a novos deslizamentos", afirma Fernanda Carbonelli, diretora executiva do ICC. "São Sebastião continua sendo um território altamente vulnerável." Esta realidade significa que o risco de novas tragédias semelhantes permanece tangível e constante.

Entre os principais desafios identificados pelo estudo estão:

  • A necessidade urgente de um novo recadastramento das famílias que vivem em áreas de risco, inclusive na própria Barra do Sahy
  • Esta medida é considerada essencial para orientar reassentamentos futuros, políticas habitacionais adequadas e estratégias eficazes de prevenção
  • O combate a novas invasões em áreas sensíveis ambientalmente
  • A fiscalização de casos de envenenamento de vegetação saudável em regiões já recuperadas

A diretora do ICC alerta especificamente para práticas de envenenamento de vegetação que comprometem diretamente a estabilidade ambiental e ampliam a vulnerabilidade do território. "O quadro avançou, mas exige vigilância constante", enfatiza Carbonelli. "A restauração ambiental não é um evento pontual; é um processo contínuo. Sem monitoramento, fiscalização e engajamento social, há o risco real de perder o que já foi conquistado."

Caminhos para uma reconstrução sustentável e segura

O balanço dos últimos três anos demonstra claramente que São Sebastião deu passos importantes rumo à recuperação, mas também evidencia que a reconstrução plena do Litoral Norte ainda está em curso. Para que novas tragédias sejam efetivamente evitadas, especialistas defendem uma abordagem integrada que combine múltiplos pilares essenciais:

  1. Fiscalização intensa para prevenir invasões, ameaças e degradação ambiental
  2. Restauração ecológica contínua das áreas afetadas
  3. Ordenamento territorial adequado que respeite as limitações ambientais
  4. Políticas habitacionais inclusivas que ofereçam alternativas seguras
  5. Educação climática ampliada para comunidades e instituições educacionais

Esta combinação estratégica é vista como fundamental para transformar a região em um espaço mais seguro, resiliente e sustentável a longo prazo. Trata-se de um esforço coletivo que precisará ser mantido, aprofundado e priorizado nos próximos ciclos governamentais, garantindo que os avanços conquistados com tanto esforço não sejam perdidos para novas ameaças ambientais e sociais.