Juiz de Fora: Um mês após tragédia, histórias de dor e luta pela reconstrução
Juiz de Fora: histórias de dor e reconstrução após tragédia

Juiz de Fora: Um mês após tragédia, histórias de dor e luta pela reconstrução

Há exatamente um mês, na noite de 23 de fevereiro, uma sequência de temporais transformou a Zona da Mata em um cenário de destruição. Em poucos dias, o acumulado de chuva superou a média histórica e deixou um saldo trágico de 65 mortos em Juiz de Fora e oito em Ubá. A tempestade, que começou no fim da tarde e ganhou intensidade durante a madrugada do dia 24, fez o Rio Paraibuna transbordar em vários pontos, provocando alagamentos severos e desmoronamentos em diferentes áreas da cidade.

Impacto imediato e medidas emergenciais

Diante do cenário catastrófico, a Prefeitura de Juiz de Fora anunciou a suspensão das aulas na rede municipal. Instituições estaduais, particulares e federais também cancelaram as atividades como medida preventiva. Os números revelam a dimensão do desastre: quase 2 mil moradias foram destruídas, deixando milhares de desabrigados. Em Ubá, o temporal causou estragos no mesmo período, com o transbordamento do Rio Ubá e a inundação da Avenida Beira Rio.

Histórias de perda e sobrevivência

Para além dos dados oficiais, a tragédia foi vivida intensamente por moradores que enfrentaram situações extremas. No bairro Parque Burnier, o mais afetado em Juiz de Fora, uma mãe protegeu o filho de seis anos, Antony Rosa, até o último momento durante um soterramento. O menino sobreviveu, mas os pais faleceram no local.

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Vitória Gomes perdeu a mãe e a filha, Mellissa Emanuelly, de apenas 2 anos, durante o deslizamento no mesmo bairro. "Foi tudo muito rápido. Perdi a minha mãe e a minha filha de uma vez só, tudo o que eu tinha nesta vida", relatou emocionada.

Outras histórias incluem Jaqueline Teodoro de Fátima Vicente, de 32 anos, que ficou mais de 15 horas soterrada após um deslizamento na rua do Carmelo, no bairro Paineiras. Ela chegou a ser resgatada, mas não resistiu. A mãe, os dois filhos e o namorado também morreram na tragédia.

O policial Reinaldo Neiva Ferreira, de 36 anos, morreu soterrado ao salvar a esposa e vizinhos de um prédio atingido por um deslizamento. Entre as perdas mais devastadoras, está a de Maria Aparecida Batista, que perdeu 17 familiares. "Perdi 17 pessoas da família. Duas já foram enterradas, uma será enterrada agora, e ainda há 14 soterradas", disse na época.

Sobrevivência milagrosa em Ubá

Em Ubá, onde a chuva extrema registrou 170 milímetros em cerca de 3h30 e provocou "a maior inundação dos últimos anos", uma história de sobrevivência se destacou. Edna Almeida Silva, de 56 anos, permaneceu abraçada a um poste por aproximadamente 3 horas para não ser levada pela enxurrada.

"Eu dei tudo o que tinha e o que Deus me deu para sobreviver. Foi um milagre, minha fé me salvou. E, dentro do possível, estou tentando me recuperar. Ontem já consegui jantar um pouquinho; hoje consegui tomar um cafezinho", contou, emocionada.

Infelizmente, outros oito moradores não tiveram a mesma chance, incluindo Edmara Peluzo Cândido, João Gonçalves Soares, Maria da Conceição Honorato Soares, Elza das Graças da Silva, Alex Lucas Pinto, Rafael Juliano Amaral e Luciano Franklin Fernandes, namorado de Edna Almeida.

Reconstrução e desafios futuros

Um mês após a tragédia, o trabalho de recuperação nas cidades segue em ritmo acelerado. Em Juiz de Fora, ao todo, 8.880 pessoas ficaram desalojadas ou desabrigadas, o que representa cerca de 1,5% da população. A Defesa Civil já vistoriou mais de 4 mil locais, com outros mil ainda aguardando avaliação.

Os números da reconstrução são expressivos:

  • 1.008 moradias foram completamente destruídas
  • 928 imóveis estão interditados
  • 58 casas foram evacuadas por risco iminente
  • 156 famílias (457 pessoas) foram realocadas para apartamentos e hotéis

Em coletiva de imprensa na última semana, a prefeita Margarida Salomão (PT) destacou que os principais desafios imediatos envolvem moradia, além de obras de contenção de encostas e drenagem urbana. Projetos já autorizados pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do Governo Federal, somam investimentos significativos:

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  • R$ 373 milhões para obras de drenagem, com intervenções previstas em córregos de diversos bairros
  • R$ 233 milhões para obras de contenção em várias localidades da cidade

Entre as prioridades estabelecidas pelas autoridades estão:

  1. Acelerar obras estruturantes de drenagem e contenção, com previsão para 23 de fevereiro de 2027
  2. Buscar soluções definitivas para famílias desalojadas
  3. Transformar áreas de risco em zonas ambientais protegidas

A tragédia que atingiu a Zona da Mata deixou marcas profundas na população, mas também evidenciou a resiliência dos moradores e o compromisso das autoridades com a reconstrução. Enquanto as famílias enlutadas tentam reconstruir suas vidas, a cidade trabalha para se reerguer e prevenir futuros desastres.