Família com duas gestantes enfrenta fuga dramática após deslizamento em Juiz de Fora
"Foi a pior sensação possível. Saímos correndo, sem saber o que fazer, e estamos de mãos atadas". Este é o relato emocionado de Tainara Tomé Correia Valadão, de 32 anos, grávida de oito meses, que viveu momentos de terror durante as fortes chuvas que atingiram Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira.
Fuga desesperada em meio ao temporal
Ao lado da filha de 14 anos, que também espera um bebê, Tainara percorreu cerca de 30 minutos a pé, acompanhada dos outros três filhos, de 12, 10 e 8 anos, até conseguir chegar a um abrigo na cidade. A família precisou abandonar às pressas a casa onde morava, na Rua José de Castro Ribeiro, no bairro Alto dos Três Moinhos, uma das áreas interditadas pela Defesa Civil municipal por risco iminente de deslizamento.
O principal município da Zona da Mata mineira sofre, desde a última segunda-feira (23), com volumes extraordinários de chuva. Os temporais causaram dezenas de deslizamentos, resultaram em mortes e deixaram milhares de pessoas desabrigadas e desalojadas em toda a região.
Casa cercada pela lama
Apesar de o imóvel não ter sido diretamente atingido pelo deslizamento, todos os acessos ficaram completamente bloqueados por toneladas de barro. Segundo Tainara, todas as saídas ficaram interditadas, o que obrigou a família a atravessar um pasto para conseguir deixar o local em segurança.
"A casa ainda não caiu, mas não tem como entrar. Está tudo cercado de lama. Tivemos que ir pelo pasto, porque não existia mais passagem", relatou a gestante, descrevendo a situação caótica que enfrentaram.
Fuga durante a madrugada
A mãe contou que ela e os filhos presenciaram o momento aterrador em que o barranco começou a ceder próximo à sua residência. "Mesmo no escuro, conseguimos ver toda aquela terra descendo em direção às casas", lembrou com voz trêmula.
Diante do risco iminente, a família precisou sair às pressas depois que o ex-cunhado foi até o local para alertá-los sobre o perigo crescente. Eles buscaram refúgio temporário na casa de uma familiar, mas ficaram ilhados entre meia-noite e seis da manhã, impossibilitados de sair por conta da intensidade avassaladora da chuva.
Quando o temporal deu uma breve trégua, voltaram rapidamente à residência apenas para pegar roupas e decidiram seguir a pé até um abrigo próximo. "Criamos coragem e fomos andando. Estávamos exaustos, sem dormir, com muito medo. Saímos só com a roupa do corpo e uma troca de roupa", descreveu Tainara.
Acolhimento em escola transformada em abrigo
O destino foi a Escola Municipal Vereador Raymundo Hargreaves, no bairro Bom Jardim, onde a família está acolhida desde terça-feira (24). O local é uma das 15 escolas que a Prefeitura de Juiz de Fora transformou em abrigo para receber desalojados e desabrigados pelas chuvas.
Ao longo do dia, outros familiares também chegaram ao mesmo abrigo: duas irmãs de Tainara, uma delas grávida, e mais oito sobrinhos, formando um grupo extenso que busca segurança e proteção após perderem tudo.
Perdas materiais e incertezas
Dentro da casa, ficaram para trás móveis, eletrodomésticos e, mais dolorosamente, o enxoval preparado com cuidado especial para a chegada dos dois bebês que a família espera.
"Eu tinha feito o enxoval com tanto esforço. Era o básico: um berço, um guarda-roupa, as roupinhas que já estavam lavadas e guardadas nas gavetas. Ficou tudo para trás. Não temos como voltar para buscar", contou Tainara, com voz embargada pela emoção.
A moradora revelou que o aluguel já estava pago e que, no fim do mês, não há recursos para recomeçar a vida em outro lugar. "Não tenho dinheiro para nada. Estamos esperando para saber que tipo de ajuda o poder público vai oferecer. Se a escola voltar a funcionar, para onde vamos? Não tenho para onde ir", questionou, expressando a angústia que compartilha com centenas de outras vítimas.
Segundo informações recebidas pela família, a rua foi considerada inabitável pela Defesa Civil e, por enquanto, o retorno para casa está completamente descartado. "Disseram que não podemos mais entrar, que vão demolir tudo. É muito difícil aceitar isso", confessou Tainara.
Reorganização e esperança
No abrigo, a família tenta reorganizar a rotina enquanto espera por respostas das autoridades e por um futuro menos incerto. Mesmo diante das perdas materiais e emocionais, Tainara busca forças nos filhos e na esperança de dias melhores.
"A gente perdeu tudo, mas está vivo. Agora é tentar recomeçar", afirmou com resiliência, encapsulando o sentimento de milhares de mineiros afetados pela tragédia climática que assola a região.
A situação em Juiz de Fora permanece crítica, com equipes de resgate trabalhando incessantemente, abrigos operando em capacidade máxima e uma comunidade inteira tentando se reconstruir após uma das piores tempestades já registradas na história recente da Zona da Mata mineira.



