Bombeiro psicólogo relata missão humanitária após enchentes na Zona da Mata mineira
Bombeiro psicólogo conta missão após enchentes em Minas Gerais

Bombeiro psicólogo relata missão humanitária após enchentes devastadoras na Zona da Mata

O coronel e psicólogo Mário Brito, agente do Corpo de Bombeiros do Pará há 19 anos, foi acionado pela Força Nacional do SUS para reforçar o atendimento psicológico nas enchentes que devastaram a Zona da Mata mineira. Com foco nas cidades de Juiz de Fora, Ubá e Matias Barbosa, ele chegou à região em 27 de fevereiro e concluiu sua missão humanitária 10 dias depois, retornando ao Pará na noite da última segunda-feira (9).

Chuvas extremas causam o 4º maior desastre por chuvas no Brasil na última década

As chuvas extremas na Zona da Mata mineira registraram mais de 700 mm em fevereiro, o maior volume histórico já documentado na região. Este fenômeno climático provocou deslizamentos, enchentes devastadoras e mortes, sobrecarregando completamente os serviços locais. A tragédia é considerada o quarto maior desastre por chuvas no Brasil nos últimos dez anos, com a Zona da Mata mineira registrando 72 óbitos até o momento da publicação desta reportagem.

"Eu sou psicólogo de formação e também sou bombeiro por escolha, por entender que isso é um trabalho muito importante", explica Brito, que segue o lema dos bombeiros: "Vidas alheias e riquezas salvar". Nascido em Araguaína (TO), mas considerando-se "paraense de coração" após 35 anos no Pará, ele atuou em duas frentes principais durante sua missão: apoio à gestão municipal para reestruturar redes de saúde e atendimento à saúde mental de vítimas, famílias e profissionais da linha de frente.

Atuação em duas frentes: gestão municipal e saúde mental

Como voluntário da Força Nacional do SUS, o coronel Mário Brito desenvolveu um trabalho abrangente que incluiu:

  • Apoio à gestão municipal para reestruturar redes de saúde locais
  • Atendimento à saúde mental de vítimas, famílias e profissionais da linha de frente
  • Orientação contra a medicalização excessiva de sintomas comuns como ansiedade e insônia
  • Escuta qualificada e primeiros cuidados psicológicos (PCPs)
  • Intervenções em crises e práticas integrativas como aromaterapia e auriculoterapia

"O trabalho do psicólogo nos contextos de emergências e desastres atua no suporte psicossocial imediato, com acolhimento de vítimas, afetados e familiares, e na saúde mental dos profissionais que estão na linha de frente", detalha Brito sobre sua atuação.

Histórias de dor e resiliência nos abrigos improvisados

Em abrigos improvisados em escolas e ginásios da região, Brito visitava regularmente os alojados para mapear demandas e orientar equipes locais. Ele relata histórias marcantes que revelam a força humana em meio à tragédia:

  1. Uma mãe que perdeu a filha em outra missão, no Paraná, encontrou alívio sendo voluntária ajudando outras pessoas em Minas Gerais
  2. Uma ex-abrigada nas enchentes do Rio Grande do Sul que agora atua como voluntária na Força Nacional do SUS, motivada por sua própria experiência como vítima

"Nós orientamos para evitar essa patologização de sinais esperados, como medo, ansiedade e alterações do sono", alerta Brito, combatendo o uso abusivo de medicamentos em situações onde sintomas são reações normais ao trauma.

Rotina intensa e critérios rigorosos de atuação

A rotina em Minas Gerais incluía reuniões matinais e noturnas para monitorar o bem-estar da equipe, com limitação rigorosa do tempo de permanência em campo para preservar a saúde mental dos voluntários. "A Força (do SUS) é criteriosa na seleção e no tempo de permanência, porque a longa exposição tem impactos para quem está na linha de frente", enfatiza o coronel.

Ao final de sua missão, Brito expressa sensação de "dever cumprido": "Cheguei e vi tudo caótico em Juiz de Fora e Matias Barbosa; saio vendo as cidades retomando a capacidade de resposta. Na saída, ouvimos vários relatos de agradecimento dos gestores e das próprias comunidades".

Os cinco maiores desastres pluviométricos no Brasil na última década

De acordo com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), na última década, esses foram os desastres pluviométricos mais letais no país:

  1. Petrópolis (RJ): 233 óbitos em fevereiro de 2022
  2. Rio Grande do Sul: 184 óbitos entre abril e maio de 2024
  3. Região Metropolitana do Recife (PE): 128 óbitos em maio de 2022
  4. Zona da Mata mineira: 72 óbitos até a publicação desta reportagem
  5. Litoral Norte de São Paulo: 65 óbitos em fevereiro de 2023

A Zona da Mata mineira continua enfrentando graves consequências das enchentes, com diversas ruas ainda interditadas e milhares de pessoas desabrigadas. Salas de aula foram transformadas em quartos improvisados para abrigar os atingidos, enquanto as cidades trabalham para retomar sua normalidade.

"O trabalho nas emergências nos coloca na posição de que todos estamos vulneráveis. Nosso papel é levar esperança, conforto e dignidade para diminuir o sofrimento", reflete o coronel Mário Brito sobre a experiência humanitária que marcou profundamente tanto os voluntários quanto as comunidades afetadas pela tragédia.