Três adolescentes morrem após descarga elétrica em igarapé no Acre; causa ainda é investigada
Adolescentes morrem após descarga em igarapé no Acre

Três adolescentes perdem a vida após descarga elétrica em igarapé no interior do Acre

A morte dos adolescentes Miquéias Oliveira da Silva, de 13 anos, Uallen Souza Rodrigues, de 14, e Osanir Gomes da Silva, de 15, após uma descarga elétrica em um igarapé no interior do Acre, causou profunda comoção e levantou importantes dúvidas sobre as circunstâncias exatas do trágico acidente. O caso ocorreu na tarde da última segunda-feira, 6 de maio, no Ramal do Manã, uma zona rural de difícil acesso em Cruzeiro do Sul, enquanto os jovens tomavam banho após atividades escolares.

O que aconteceu no igarapé?

Segundo relatos familiares, os adolescentes haviam estudado pela manhã e planejavam retornar à escola no período da tarde. Contudo, antes disso, decidiram ir ao igarapé que fica próximo às suas residências, um local frequentemente utilizado por moradores da região. Miquéias foi o primeiro a ser atingido pela descarga. Ao perceberem a situação crítica do amigo, Uallen e Osanir tentaram prestar socorro, mas infelizmente também acabaram recebendo a forte descarga elétrica.

O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi prontamente acionado, porém Miquéias e Uallen já estavam sem vida quando as equipes de resgate conseguiram chegar ao local remoto. Osanir ainda foi socorrido com vida, mas não resistiu após entrar em parada cardiorrespiratória dentro da ambulância, durante o transporte para atendimento médico.

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Dificuldades no resgate e atendimento

O atendimento às vítimas foi significativamente dificultado pelas condições de acesso à região isolada. Inicialmente, o Samu foi acionado com a informação de apenas uma vítima, mas durante o deslocamento a situação foi atualizada para três adolescentes em grave estado. Moradores locais tiveram que transportar os jovens até um ponto acessível na estrada, onde as equipes de emergência finalmente conseguiram chegar.

A primeira assistência foi prestada por uma equipe da comunidade Santa Luzia, seguida por uma unidade avançada do Samu. Os profissionais de saúde realizaram manobras de reanimação com intubação, mas infelizmente não obtiveram sucesso. De acordo com relatos do Samu, os adolescentes apresentavam sinais claros de afogamento, incluindo presença de líquido nos pulmões e espuma pela boca, indicando que perderam a consciência ainda dentro da água.

Famílias acreditam em peixe-elétrico como causa

Familiares das vítimas sustentam firmemente que a descarga elétrica foi provocada por um poraquê, peixe-elétrico comum na região amazônica. O agricultor Osamir Braga da Silva, pai de Osanir, afirmou categoricamente que não existe fiação elétrica no local do acidente e que o igarapé é conhecido pela presença desse animal, especialmente em períodos em que ele se aproxima de áreas mais rasas.

"A gente conhece o lugar. Não tem fio dentro do igarapé. A fiação passa longe, é alta. Também não foi afogamento, porque eles sabiam nadar, brincavam ali. Na região tem muito poraquê, principalmente nessa época do ano quando eles sobem para áreas mais rasas", declarou o pai, visivelmente abalado pela perda do filho.

Osamir também relatou que, apesar da conhecida presença do animal em pontos próximos, nunca havia sido registrado um caso semelhante a este no trecho específico do igarapé, que fica perto da casa da família e tem aproximadamente um metro de profundidade.

Samu não confirma causa da descarga

Em contraste com a convicção das famílias, o diretor do Samu, Caio Magalhães, destacou que ainda não é possível confirmar a origem exata da descarga elétrica. "Os populares e familiares falam que foi o peixe elétrico, mas a gente não acredita tanto nessa alternativa, a não ser que eles três estivessem de mão dadas e em contato direto, porque o choque do poraquê é por contato", explicou o diretor.

As equipes de resgate consideram outras possibilidades, incluindo contato com fiação elétrica que possa ter atingido a água acidentalmente. Outra hipótese investigada é a de que a água tenha entrado em contato com alguma fonte elétrica externa, como fiação inadequada ou equipamentos, provocando assim a descarga no igarapé.

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O que é o poraquê e como ele age?

O poraquê, cientificamente conhecido como Electrophorus electricus, é um peixe-elétrico impressionante capaz de emitir descargas que podem alcançar até 860 volts. Segundo o biólogo Lisandro Juno Soares Vieira, mestre e doutor em Ecologia e Recursos Naturais pela UFSCar, o animal possui células especializadas chamadas eletrócitos, responsáveis por gerar a potente descarga elétrica.

Esse mecanismo biológico é utilizado principalmente como defesa contra predadores e para capturar presas. O especialista ressalta que o peixe não ataca seres humanos de forma intencional, reagindo apenas quando se sente genuinamente ameaçado. O choque ocorre principalmente por contato direto, mas pode atingir pessoas próximas devido ao campo elétrico gerado na água, especialmente em ambientes aquáticos confinados.

A tragédia que vitimou os três adolescentes continua sob investigação, enquanto familiares e a comunidade de Cruzeiro do Sul tentam lidar com a dor da perda prematura. As autoridades locais reforçam a importância de cuidados em áreas naturais, especialmente em regiões com presença conhecida de animais potencialmente perigosos.