Sucuris em MS: como estado se tornou vitrine e derruba mitos sobre a espécie
Sucuris em MS: vitrine que derruba mitos sobre a espécie

Mato Grosso do Sul tornou-se uma verdadeira vitrine para as sucuris no Brasil, graças às águas cristalinas de Bonito e aos encontros próximos com turistas no Pantanal. Registros recentes mostram desde serpentes gigantes nadando perto de visitantes até cenas raras de predação e acasalamento, contribuindo para desmistificar a imagem de animal agressivo.

Comportamento real das sucuris

Especialistas explicam que a fama negativa das sucuris foi construída ao longo dos anos pelo tamanho impressionante e pelo medo histórico associado às cobras. Filmes, histórias exageradas e vídeos falsos em redes sociais reforçaram essa percepção. No entanto, biólogos afirmam que a espécie tem comportamento tranquilo, evita humanos e raramente representa risco.

Das quatro espécies de sucuri existentes no mundo, três vivem no Brasil. Mato Grosso do Sul abriga duas: a sucuri-verde (Eunectes murinus), a maior e mais pesada serpente do mundo, podendo pesar até 200 kg e chegar a 7 metros; e a sucuri-amarela (Eunectes notaeus), comum no Pantanal, cuja fêmea pode atingir 4 metros.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Encontros em águas cristalinas

Em rios como o Rio Sucuri, em Bonito, a transparência da água permite que turistas observem peixes, plantas e até grandes serpentes a poucos metros durante atividades de flutuação. A combinação de rios cristalinos, turismo de natureza e áreas preservadas explica a frequência de encontros com sucuris no estado. Guias locais relatam que visitantes chegam com medo, mas se surpreendem com o comportamento calmo dos animais, que muitas vezes permanecem imóveis ou nadam lentamente.

Flagrantes recentes

Registros publicados em redes sociais por guias e turistas mostram sucuris em diversas situações. Em Bonito, no dia 29 de abril, o guia Ronis Souza Nunes flagrou uma sucuri predando um porco-do-mato durante um passeio no Rio Sucuri, diante de turistas portugueses. “Eu brinquei que a possibilidade existia, já que estávamos no habitat delas. E não é que tivemos essa sorte?”, disse.

No Pantanal, em 8 de abril, o guia Fagner Roque de Almeida registrou uma sucuri a cerca de um metro durante um safári na fazenda Caiman. “Por ser um animal inofensivo, conseguimos nos aproximar, mantendo distância segura e respeitando o espaço do animal”, afirmou.

Em março, em Bonito, o guia de pesca Isaque Uchoa flagrou uma sucuri tomando sol sobre um galho no Rio Miranda. Ele contou que viu outra serpente no mesmo rio, mas não filmou. “Foi legal, vemos direto. Mas não é época delas, normalmente fazem isso no frio. Ela é muito bonita, a natureza é linda demais”, disse.

Outros vídeos recentes mostram sucuris se alimentando às margens de rios em Deodápolis e tomando sol em galhos no Rio Miranda, registrados por guias e turistas durante atividades de ecoturismo.

Desinformação e vídeos falsos

Os registros ajudam a explicar por que o comportamento atribuído às sucuris na internet nem sempre corresponde à realidade. Vídeos produzidos com inteligência artificial têm viralizado, mostrando ataques irreais de “sucuris gigantes” contra pessoas, acumulando milhões de visualizações e reforçando a ideia de agressividade.

Dois vídeos analisados pelo g1 mostram situações fictícias com legendas como “veja sucuri atacando turista” e “susto na floresta”. Em um, um homem aparece sendo enrolado por uma serpente gigante; em outro, uma mulher é atacada em um zoológico. As imagens foram submetidas à plataforma Hive Moderation, que detectou 100% de geração por IA.

Especialistas afirmam que esses conteúdos confundem espécies e criam percepção distorcida. “Vemos vídeos que nem são de sucuris, muitas vezes são pítons, que nem existem no Brasil”, explica a bióloga Paula Helena Santa Rita.

O biólogo Henrique Abrahão Charles reforça: “O comportamento de uma sucuri na natureza é tranquilo, ela é calma e costuma ficar escondida. Não há registros oficiais de ataques fatais a humanos”.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Importância para a conservação

Diferentemente de serpentes peçonhentas, as sucuris não entram como categoria específica nos sistemas nacionais de vigilância epidemiológica, dificultando a consolidação de números oficiais sobre ataques. Os especialistas explicam que ataques podem acontecer, mas são raros. As sucuris usam o bote para segurar presas e depois realizam constrição. Presas naturais incluem capivaras, jacarés, aves e roedores.

O problema dos vídeos vai além da desinformação, podendo influenciar a forma como as pessoas enxergam os animais. “Qualquer vídeo mostrando ataque gera medo. No caso das cobras, esse medo é ainda maior”, afirma Paula Helena. “Isso pode levar as pessoas a matarem o animal simplesmente por ele aparecer.”

Símbolo da biodiversidade local

Excelentes nadadoras, as sucuris passam grande parte do tempo debaixo d’água e podem demorar semanas para digerir presas. Em todas as espécies, as fêmeas são significativamente maiores que os machos. Na natureza, evitam contato com humanos e preferem fugir quando ameaçadas.

Em Mato Grosso do Sul, especialmente no Pantanal e em Bonito, as sucuris fazem parte da paisagem natural e se consolidaram como símbolos da biodiversidade brasileira. A presença delas inclui casos incomuns, como a “Sucuri do buraco”, em Jardim, que vive no Buraco das Araras, uma formação rochosa milenar. A chegada da serpente à dolina é um mistério; guias acreditam que ela possa ter sido arrastada por uma enxurrada durante uma forte chuva e ficou presa na cratera de 100 metros de profundidade e 500 metros de circunferência.