Ambulantes enfrentam condições degradantes em acampamento no Ibirapuera durante carnaval
Cerca de 200 vendedores ambulantes enfrentaram condições extremamente precárias durante as noites de carnaval em um acampamento improvisado ao lado do Parque Ibirapuera, na Zona Sul de São Paulo. Os trabalhadores dormiram diretamente no chão e tiveram que dividir apenas quatro banheiros químicos, que estavam completamente imundos e com larvas visíveis, segundo relatos dos próprios marreteiros.
Fila antecipada e controle rigoroso
Dias antes do início das festividades, centenas de pessoas já ocupavam as calçadas em frente aos portões do parque, tentando garantir um lugar nos concorridos megablocos. A prefeitura disponibilizou uma área na rua Marechal Maurício Cardoso, próxima à entrada dos blocos, após denúncias de venda de vagas na fila externa. O local foi completamente cercado por tapumes e contava com equipes da Guarda Civil Metropolitana controlando rigorosamente todas as entradas e saídas.
Os ambulantes credenciados relataram ter ficado aproximadamente 12 horas consecutivas sem poder sair do recinto - das 19h até as 7h, quando o circuito era reaberto. "Eles falaram que o nosso carrinho ia ser tomado e que a gente ia perder a vaga se saísse", explicou Janine Rodrigues, sobre as orientações recebidas dos agentes da GCM. Os carrinhos dos trabalhadores foram cercados por gradis ao acessar o local, sem qualquer estrutura de acomodação adequada.
Condições sanitárias críticas e relatos de humilhação
A situação sanitária se mostrou especialmente crítica. "São quatro banheiros para 200 pessoas. Está sujo há uma semana, tem até larvas dentro dos banheiros, eles não limpam para os ambulantes usarem", denunciou Alice Percigili, que enviou vídeos comprovando as condições degradantes. A trabalhadora completou: "A gente está aqui porque a gente precisa, porque se a gente não garantir o nosso, outras pessoas vão pegar o nosso lugar".
Alice ainda criticou duramente a organização da prefeitura e da Ambev, patrocinadora oficial do carnaval paulistano neste ano: "A gente trabalhou o dia inteiro, está todo mundo molhado da chuva, com fome, querendo ir pra casa tomar um banho. Em sete anos que eu faço carnaval, nunca passei essa humilhação". O sentimento foi compartilhado por outros trabalhadores, como o corretor de imóveis Henrique Konstantinovas, que investiu em seu próprio carrinho este ano: "Somos tratados como bicho. Não fosse essa humilhação, valeria a pena".
Concorrência acirrada e limitação de vagas
Os trabalhadores explicaram que o circuito de megablocos do Ibirapuera se tornou o mais concorrido entre os marreteiros por concentrar a maioria das apresentações de artistas famosos, como Pabllo Vittar e Ivete Sangalo. Sem qualquer apoio institucional, os ambulantes passaram a acampar nos arredores do parque por vários dias consecutivos para garantir sua entrada, especialmente porque a prefeitura limitou a 1.200 o número diário de vendedores autorizados a trabalhar no local.
Mesmo faltando dois dias para o pós-carnaval, dezenas de grupos de marreteiros já formavam fila na Avenida Pedro Álvares Cabral nesta quinta-feira (19). A expectativa é faturar valores significativos nos blocos do BaianaSystem no sábado (21) e de Leo Santana no domingo (22), embora o retorno financeiro nem sempre compense o desgaste físico e emocional - Henrique Konstantinovas relatou lucrar em média R$ 400 por dia.
Recomendações do Ministério Público do Trabalho
Na última sexta-feira (13), o Ministério Público do Trabalho emitiu recomendação formal para que a Prefeitura de São Paulo e a Ambev adotem medidas concretas para melhorar a estrutura oferecida aos ambulantes oficiais. O órgão solicitou especificamente:
- Criação de centros de convivência adequados
- Estabelecimento de pontos de hidratação
- Instalação de banheiros separados por gênero
- Fornecimento de produtos de higiene pessoal
O documento destacou ainda que o não cumprimento dessas providências poderá levar à adoção de medidas administrativas e judiciais contra os responsáveis. A prefeitura, por meio da gestão Ricardo Nunes (MDB), afirmou em nota que não recomenda a presença antecipada dos trabalhadores na região, explicando que um acampamento espontâneo havia bloqueado o acesso de caminhões ao circuito do Ibirapuera.
Segundo a Subprefeitura da Vila Mariana, a ocupação da rua Marechal Maurício Cardoso ocorreu "para segurança dos produtores do carnaval e dos próprios ambulantes", embora o local estivesse apenas tapumado com saída liberada. O g1 questionou se a fila preferencial para 200 ambulantes será repetida nos megablocos do pós-carnaval, mas não obteve resposta da administração municipal até o momento.



