Influenciadora documenta situação dos locais do acidente com Césio-137 após 38 anos
Mesmo após quase quatro décadas do pior acidente radiológico da história do Brasil, ocorrido em Goiânia em 1987, muitas pessoas ainda questionam onde estão localizados os restos do Césio-137. Uma influenciadora recentemente mostrou como estão os locais atingidos pela contaminação, revelando um cenário que permanece como um alerta permanente sobre os perigos da radiação.
Os resíduos radioativos e seus riscos prolongados
A preocupação com a localização dos resíduos não é infundada. Pesquisadores alertam que, embora a radiação tenha diminuído ao longo dos anos, os riscos associados ao material contaminado só devem desaparecer completamente após aproximadamente 200 anos. O acidente resultou em quatro mortes confirmadas e afetou mais de mil pessoas, gerando um volume impressionante de 6 mil toneladas de lixo radioativo durante os trabalhos de descontaminação.
Esse material incluiu desde roupas e utensílios domésticos até materiais de construção, todos contaminados pelo Césio-137. Para se ter uma dimensão do poder de contaminação dessa substância, essas 6 mil toneladas de resíduos foram produzidas a partir de apenas 19 gramas do material radioativo, que estavam contidos no cabeçote de chumbo de um aparelho de radioterapia abandonado.
O destino final dos resíduos em Abadia de Goiás
Todo esse material foi transportado para depósitos especiais em Abadia de Goiás, localizada a pouco mais de 20 quilômetros da capital goiana. Lá, os resíduos foram enterrados e concretados em uma área dentro do Parque Estadual Telma Otergal, às margens da BR-060, ocupando um espaço de aproximadamente 1.548 metros quadrados.
No local, foi estabelecido o Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro Oeste (CRCN-CO), vinculado à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). Este centro abriga dois depósitos distintos: um contendo 40% do total de rejeitos, considerados menos radioativos, e outro com os 60% restantes, que incluem os resíduos efetivamente radioativos, entre eles os restos da fonte principal que originou a tragédia.
O acidente que marcou Goiânia para sempre
O episódio começou em 13 de setembro de 1987, quando dois homens retiraram um aparelho de radioterapia abandonado das ruínas do antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR). O equipamento foi levado para uma residência no Setor Central, onde a cápsula contendo o Césio-137 foi violada, liberando o pó radioativo.
Posteriormente, o material foi vendido para um ferro-velho no Setor Aeroporto, cujo proprietário, encantado com o brilho azul característico do césio, distribuiu fragmentos para familiares e amigos. Os sintomas de contaminação – incluindo náuseas, tonturas, vômitos e diarreia – logo apareceram entre os que manipularam a substância.
Com a confirmação oficial do acidente pelo físico Walter Mendes Ferreira, uma operação de emergência foi montada no Estádio Olímpico (atual Centro de Excelência do Esporte), onde mais de 112 mil pessoas foram avaliadas. Desse total, 249 apresentaram algum grau de contaminação e 129 necessitaram de acompanhamento médico permanente.
O silenciamento da memória do desastre
A tragédia deixou marcas profundas em Goiânia, mas segundo a pesquisadora Célia Helena Vasconcelos, da Universidade Federal de Goiás (UFG), a cidade tentou apagar a memória do evento. Em suas pesquisas, ela constatou a quase ausência de registros visíveis do acidente na capital goiana.
"Rodei Goiânia inteira e não encontrei praticamente nada. Nem placas, nem memoriais, nem referências nos locais onde tudo aconteceu", relatou a pesquisadora. Ela observou que ruas associadas ao desastre foram renomeadas, como a antiga Rua 57-A, que passou a se chamar Rua Paulo Henrique de Andrade, e a Rua 26-A, onde ficava o ferro-velho que foi epicentro da contaminação, rebatizada como Rua Francisca da Costa Cunha (Tita).
Para Célia Helena, essas mudanças contribuem para o apagamento da história, já que o acidente está intrinsecamente ligado às denominações originais desses locais, que gradualmente deixam de ser reconhecidas pelas novas gerações.
Monitoramento contínuo e pesquisa científica
A função principal do CRCN-CO em Abadia de Goiás é monitorar constantemente os resíduos do Césio-137 e promover pesquisas na área ambiental relacionadas à radioatividade. As duas elevações no terreno onde foram construídos os depósitos permanecem como testemunhas silenciosas de uma das maiores tragédias radiológicas do mundo.
Enquanto isso, as imagens da tragédia continuam a circular, lembrando às gerações atuais e futuras os perigos do manuseio inadequado de materiais radioativos e a importância da memória histórica para prevenir catástrofes similares.



