Morte de criança por picada de escorpião em Conchal gera alerta e investigação policial
A morte de um menino de 3 anos após ser picado por um escorpião dentro de casa gerou alerta e preocupação entre moradores de Conchal, no interior de São Paulo. A tragédia ocorreu na noite de terça-feira (31) e levou a Polícia Civil a abrir investigação para apurar possível negligência no atendimento médico.
Demora no atendimento e falecimento
A criança, identificada como Bernardo de Lima Mendes, foi picada em sua residência e, segundo relato do pai, recebeu o soro antiescorpiônico somente mais de quatro horas após o acidente. O menino foi inicialmente levado ao Hospital e Maternidade Madre Vannini, em Conchal, e depois transferido para a Santa Casa de Araras, localizada a 26 quilômetros da cidade. Infelizmente, Bernardo não resistiu e faleceu na manhã de quarta-feira (1º).
Protocolos de saúde indicam que o soro antiveneno deve ser aplicado em crianças de até 10 anos em até uma hora e meia após a picada, conforme reforçado pela Secretaria Estadual da Saúde. A Santa Casa de Araras é a unidade de referência mais próxima para atender casos desse tipo na região.
Tensão e medidas caseiras dos moradores
Após a morte de Bernardo, a rotina em Conchal transformou-se em um cenário de constante apreensão. No bairro Santa Luzia, o casal de empreendedores André Padilha e Natalice Padilha adotou uma medida inusitada na tentativa de combater os escorpiões: mantêm galinhas no quintal, mesmo em um espaço reduzido.
"Estou vivendo como se estivesse trancada dentro de casa. Colocamos telas de proteção nos ralos e galinhas em um quintal hiper pequeno, que não tem condições adequadas para criação", desabafou Natalice. Pais de duas crianças, eles afirmam viver em alerta permanente. "A população precisa muito da prefeitura nesse combate aos escorpiões, porque a situação está fora de controle", completou André.
Reboco nos muros e questionamentos
A pedido da prefeitura, o casal teve que rebocar o muro dos fundos da residência, pois o município alegou que os escorpiões se abrigam nos vãos dos tijolos. A obra foi realizada há dois anos, mas, de acordo com a família, o problema persiste de forma alarmante. Em apenas um mês, eles relatam ter encontrado 35 escorpiões dentro de casa.
"Se a criança chora à noite, eu já levanto e procuro alguma coisa porque a gente fica extremamente apreensivo", disse Natalice. Outra moradora do bairro, a técnica de enfermagem Daniele Machado, também recebeu notificação para rebocar o muro, mas questiona a eficácia da medida. "Acho que estão querendo achar um culpado em vez de resolver o problema de verdade. Vamos rebocar o muro, mas onde está o foco principal de onde esses escorpiões estão vindo?", indagou.
Posicionamento da prefeitura e ações realizadas
A prefeitura de Conchal informou que o reboco é uma medida técnica e preventiva recomendada. Segundo Bruno Ricci, chefe da Divisão de Vigilância em Saúde, recentemente foi realizada uma operação em todos os bairros da cidade, denominada "Cidade Limpa". "Quando aparece caso de escorpião ou reclamação, um profissional capacitado é enviado para fazer orientação técnica e solicitar a limpeza ao redor das residências", explicou.
O município também afirmou que já vinha realizando a limpeza de terrenos, notificando proprietários e que equipes de Zoonoses estiveram nos pontos com maior incidência de escorpiões, incluindo as regiões citadas pelos moradores. Sobre o soro antiescorpiônico, a prefeitura disse que já fez solicitação para disponibilizar o tratamento na cidade, mas a Secretaria Estadual da Saúde não informou se há previsão para isso.
Infestação crescente e outros casos
Moradores relatam que o aumento no número de escorpiões começou há cerca de três anos. No bairro Santa Luzia, muitos acreditam que os animais peçonhentos estejam vindo de uma área de mato que pertence à empresa Cutrale. A EPTV, afiliada da TV Globo, tentou contato com a empresa, mas não obteve resposta.
Outros casos reforçam a gravidade da situação. O filho da costureira Aparecida Alves dos Reis da Silva também foi picado por um escorpião em janeiro, quando tinha um ano e meio. "Meu marido matou o escorpião, pegamos a criança e corremos para o hospital. Lá, ele ficou mais de 6 horas em observação, mas graças a Deus não deu nada", relatou.
No Jardim São Paulo, a dona de casa Talia Tavares expressa preocupação redobrada após o nascimento do filho, Luis, em março. "Já reclamamos na prefeitura, levamos vídeos e fotos, mas nada é feito. Encontramos escorpião, aranha, o terreno é totalmente sujo, cheio de mato, e nada resolve", afirmou.
A morte de Bernardo expõe uma crise de saúde pública que assombra os residentes de Conchal, que clamam por ações efetivas e imediatas para conter a infestação de escorpiões e prevenir novas tragédias.



