O fascismo disfarçado: como teorias sobre ETs e sociedades secretas escondem raízes autoritárias
Em um momento crucial para a democracia brasileira, o renomado escritor e dramaturgo Walcyr Carrasco lança um alerta contundente sobre os perigos do pensamento autoritário que se esconde por trás de crenças aparentemente inofensivas. Em artigo publicado na edição de 17 de abril de 2026 da revista VEJA, Carrasco desmonta teorias sobre alienígenas, sociedades secretas e povos escolhidos, revelando como essas narrativas podem servir de disfarce para ideologias fascistas.
Das estrelas à terra: a sedução das narrativas de superioridade
O autor inicia sua reflexão abordando uma teoria popular entre círculos esotéricos: a ideia de que seres humanos seriam descendentes de alienígenas que nos criaram para trabalhar como escravos na mineração de recursos terrestres. Segundo essa visão, nossos supostos criadores teriam até mesmo ordenado um dilúvio para eliminar a espécie, sendo impedidos por uma facção dissidente de extraterrestres.
"Os ETs não nos abandonaram completamente", observa Carrasco, sugerindo que essa crença alimenta a noção de que seres superiores continuam entre nós, talvez até como vizinhos comuns, trabalhando secretamente para nosso "aprimoramento".
Além das teorias alienígenas, o autor menciona o pensador russo P.D. Ouspensky e sua visão de que abelhas e formigas constituiriam sociedades mais "perfeitas" que a humana, onde cada indivíduo nasce com seu destino definido - operárias sempre operárias, rainhas sempre rainhas - sem espaço para a criatividade disruptiva dos artistas.
A sociedade secreta que tudo controla
Carrasco também aborda a crença em uma suposta sociedade secreta que monitoraria a evolução humana, liberando invenções revolucionárias em momentos estratégicos. Segundo essa visão, avanços como carros e aviões não seriam fruto do engenho humano coletivo, mas presentes concedidos por essa elite oculta.
"Por que nos satisfaríamos com nossa limitada humanidade se em algum lugar há uma creche de Leonardos da Vinci?", questiona o autor, destacando como essa perspectiva desvaloriza as conquistas ordinárias da humanidade comum em favor de uma suposta elite de gênios.
O núcleo autoritário: quando a crença vira justificativa para o poder
O cerne da análise de Carrasco reside na conexão entre essas crenças e o pensamento autoritário. O autor observa que conhece pessoas "bacanas" que acreditam sinceramente nessas teorias, demonstrando como ideias potencialmente perigosas podem seduzir até os bem-intencionados.
"Acho incrível como o fascismo se disfarça de tantas maneiras e é capaz de atrair até os mais bem-intencionados", reflete Carrasco, estabelecendo o elo crucial entre crenças em "escolhidos" e tendências autoritárias.
O raciocínio é direto: se existem seres superiores - sejam eles alienígenas, membros de sociedades secretas ou indivíduos com "sangue divino" - não teriam eles o direito natural de governar os comuns? Carrasco traça um paralelo histórico com as monarquias que justificavam seu poder através de suposta linhagem divina, lembrando que essa confusão entre fé e política já causou imenso sofrimento humano ao longo da história.
O perigo contemporâneo: a sedução pelo "gênio" político
Embora as sociedades ocidentais modernas tenham superado a noção aberta de "sangue divino" como justificativa para o poder, Carrasco alerta para uma versão atualizada desse fenômeno: a admiração por figuras que se apresentam como geniais e detentoras de soluções para todos.
"Somos capazes de eleger alguém que se diz capaz de saber o que é bom para todo mundo. Principalmente para ele", ironiza o autor, destacando como a sedução pela figura do "salvador" ou "iluminado" pode levar a escolhas políticas perigosas.
O artigo ressalta que as pessoas frequentemente apreciam excessivamente a ideia de um ser sábio pronto para comandar, uma tendência que se torna particularmente preocupante em períodos eleitorais. Carrasco conclui com um conselho direto: "Em ano eleitoral, é saudável ficar de olhos bem abertos", incentivando uma postura crítica diante de candidatos que se apresentam como figuras excepcionais ou detentoras de verdades absolutas.
A análise de Walcyr Carrasco serve como um alerta urgente sobre como narrativas aparentemente fantasiosas podem esconder sementes autoritárias, especialmente em contextos políticos onde a democracia enfrenta desafios. Ao desmontar teorias sobre ETs e sociedades secretas, o autor revela os mecanismos psicológicos que tornam as pessoas vulneráveis a lideranças que prometem soluções mágicas e autoritárias para problemas complexos.



