Lenacapavir: preço da injeção semestral contra HIV será definido no Brasil até junho
O lenacapavir, uma injeção semestral contra o HIV, terá seu preço de comércio estabelecido no Brasil até o início de junho. Este antirretroviral de longa duração é considerado uma das principais apostas na prevenção e tratamento do vírus, representando um avanço significativo na área médica.
Processo de regulamentação em andamento
No mês passado, a farmacêutica Gilead Sciences, responsável pela fabricação do medicamento, encaminhou à CMED (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos) o pedido de registro do valor máximo permitido para venda no país. Este é o último passo necessário para que o produto, comercializado sob o nome de Sunlenca, possa entrar efetivamente no mercado nacional.
Em nota oficial, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) informou que o prazo para resposta sobre o preço é 3 de junho. A documentação apresentada pela fabricante, conhecida como DIP (Documento Informativo de Preço), contém o preço pretendido e dados que fundamentam a proposta, incluindo valores praticados internacionalmente e comparações com terapias já disponíveis.
A CMED, então, estabelece dois tetos: o preço de fábrica e o preço máximo ao consumidor, que passam a limitar a comercialização do medicamento. A definição do valor no Brasil seguirá uma lógica de comparação internacional e avaliação do ganho terapêutico em relação às alternativas existentes.
Preço elevado e desafios para o SUS
O caso do lenacapavir é particularmente singular devido aos valores envolvidos. Nos Estados Unidos, o medicamento tem preço tabelado em US$ 25,3 mil por pessoa ao ano (aproximadamente R$ 136 mil), podendo alcançar US$ 44,8 mil (cerca de R$ 241 mil) em determinadas situações. A Gilead não revelou o valor sugerido à CMED, apenas afirmou que aguarda a conclusão do processo e reafirma seu compromisso com o acesso à inovação farmacêutica no Brasil.
O preço elevado do lenacapavir deve ser a principal barreira para sua inclusão no SUS (Sistema Único de Saúde) e distribuição gratuita à população. Pela regra de regulação, o valor aprovado não pode superar o menor preço observado em uma cesta de países de referência e pode ser ainda mais limitado caso o medicamento não represente avanço clínico significativo.
Possibilidades de cooperação e estudos no Brasil
Apesar dos desafios, existem possibilidades de acordos que poderiam facilitar o acesso. A Gilead firmou um memorando de entendimento com o Instituto de Tecnologia em Fármacos da Fiocruz (Farmanguinhos) para avaliar alternativas de cooperação, incluindo o potencial de uma futura transferência de tecnologia para fabricação do medicamento no país.
Na prática, o compartilhamento de tecnologia poderia reduzir custos de produção e tornar a fórmula mais acessível no Brasil. Outra opção seria a fabricação da fórmula genérica, que, conforme estudo publicado na revista Lancet, poderia custar de US$ 25 a US$ 47 por ano (de R$ 135 a R$ 253).
Entretanto, essa possibilidade não deve se concretizar no Brasil, uma vez que a Gilead não autorizou o país a fabricar versões genéricas do medicamento. Desde o ano passado, a farmacêutica realiza acordos de licenciamento para produção de fórmulas genéricas do lenacapavir em 120 países considerados os mais vulneráveis pela baixa renda da população – o Brasil não foi incluído nessa lista.
Apesar disso, a Gilead tem colaborado para estudos sobre o medicamento no país, liberando doses gratuitamente. Um deles, chamado ImPrEP LEN Brasil, será conduzido pela própria Fiocruz e disponibilizará o medicamento em sete cidades brasileiras:
- São Paulo
- Rio de Janeiro
- Salvador
- Florianópolis
- Manaus
- Campinas (SP)
- Nova Iguaçu (RJ)
Este projeto representa um passo importante na avaliação da eficácia e viabilidade do lenacapavir no contexto brasileiro, enquanto aguardamos a definição final do preço que determinará seu acesso amplo à população.



