Mortes em centro de hemodiálise em Mossoró: paciente relata mal-estar e falta de água
Uma paciente, que preferiu não se identificar, relatou à Inter TV que presenciou o momento em que duas pacientes morreram no Centro de Diálise de Mossoró, no Rio Grande do Norte. Raquel Ferreira da Silva Cabral, de 54 anos, e Iraci Inácio de Lima, de 75, faleceram na terça-feira (27). Após o episódio, a clínica interrompeu as atividades e foi interditada pela Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap). Uma terceira paciente, Marivânia Freire Mendonça, de 36 anos, morreu no dia seguinte. A Vigilância Sanitária e a Polícia Civil investigam o caso.
Relato detalhado da paciente testemunha
A paciente que presenciou a situação na clínica naquele dia contou que também passou mal assim que começou a hemodiálise, às 6h13. Ela chegou a ir para a UTI, recebendo alta nesta quinta-feira (26). "A gente entrou totalmente bem. Quando eu deitei, minha cabeça começou a esquentar, minha boca ficou dormente. Eu disse: 'Enfermeira, estou passando mal. Isso não é normal", relatou. "Ligeiramente, eu sentei na cadeira e chamei a enfermeira. Aí ela disse: 'Deve ser sua glicose, que baixou'. Eu disse: 'Não, que já é de costume e eu sei como são os meus sintomas. Eu estou passando mal de verdade".
A mulher descreveu que sentiu a cabeça esquentar "demais" e a boca dormente. Nesse momento, uma outra enfermeira foi chamada para avaliação, e a recomendação foi desligar a máquina de hemodiálise. Ela também recebeu um antialérgico para aliviar a dormência. "Aí ela [enfermeira] veio com um tempinho na sala e disse que tinha sido a falta de água nas máquinas, por isso que a gente tinha passado mal", afirmou a paciente. Nessa altura, Raquel Ferreira, de 54 anos, já havia morrido.
Os pacientes foram informados que um carro-pipa tinha ido abastecer a unidade, terminando o serviço por volta das 9h30. A previsão era de que as sessões de hemodiálise continuassem até 12h, mas quando as máquinas foram religadas, Iraci Inácio, de 75 anos, desmaiou na cadeira. "Aí a enfermeira-chefe disse: 'Então desliga geral que foi problema na água'", completou a testemunha.
Terceira vítima e realocação de pacientes
Marivânia Freire Mendonça, de 36 anos, paciente renal crônica, morreu nesta quinta-feira (26) em Grossos, interior do Rio Grande do Norte. Segundo a família, ela não realizava sessões na unidade desde a semana passada e não conseguiu fazer hemodiálise na terça por conta da interdição da clínica. A prefeitura de Grossos informou que Marivânia alegou estar há quatro dias sem realizar sessões, embora costumasse fazer três por semana.
Diferente das outras duas vítimas, Marivânia não morreu na clínica. Ela passou mal em casa, foi levada ao Hospital Municipal Flaviana Jacinta com dispneia (falta de ar) importante, saturação de oxigênio em 89% e pressão arterial elevada. Após piora do quadro, necessitou de entubação e, durante preparativos para transferência, sofreu parada cardiorrespiratória, falecendo após 45 minutos de reanimação.
O marido dela, Franciélio Gertrudes de Farias, relatou que a esposa apresentou inchaço após não realizar a hemodiálise. "Chegou lá e disse que o hospital tinha fechado e estava com falta de água. E ela chegou em casa já toda inchada. Chegou com muito líquido. Eu vi que a cara dela estava muito inchada", contou.
O Centro de Diálise de Mossoró atendia 224 pacientes, sendo 208 via SUS e 16 por convênios. A Sesap informou que todos os pacientes afetados pela paralisação foram realocados em clínicas de Mossoró, Caicó e Natal. Na noite de quarta, 104 pacientes foram atendidos, priorizando os que tiveram procedimentos interrompidos na terça, e outros 94 começaram a ser atendidos nesta quinta.
Investigações e medidas tomadas
A Sesap interditou o Centro de Diálise "até que os fatos sejam apurados e a segurança dos pacientes garantida". Em nota, a clínica informou que o equipamento responsável pelo sistema de osmose apresentou uma intercorrência técnica que comprometeu seu funcionamento, levando à paralisação temporária como medida preventiva.
Sobre possível contaminação da água, a clínica afirmou adotar "rigorosos padrões de controle de qualidade", com análises laboratoriais diárias e monitoramento mensal por laboratório terceirizado, encaminhando laudos à Vigilância Sanitária. A unidade passou por vistoria das Vigilâncias Sanitárias do estado e do município nesta quinta, e a Polícia Científica realizou perícia na quarta, recolhendo um filtro com material biológico para análise.
O Conselho Regional de Medicina do RN (Cremern) também realizou uma vistoria de aproximadamente duas horas, coletando dados para um relatório técnico. A unidade está em obras para revestimento de corredores devido à presença de salitre, mas, segundo a Vigilância Sanitária de Mossoró, não há intervenções nas salas de diálise. A Sesap continuará monitorando a investigação e as condições de funcionamento da clínica.



