Anvisa reforça barreiras contra canetas emagrecedoras irregulares
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) está intensificando esforços para conter o uso de canetas emagrecedoras irregulares, em um cenário marcado por pressões políticas, explosão no consumo e forte apelo estético nas redes sociais. As medidas anunciadas recentemente visam produtos importados do Paraguai ou fabricados fora dos padrões sanitários em farmácias de manipulação, formando um mercado paralelo aos medicamentos registrados, como Ozempic (semaglutida) e Mounjaro (tirzepatida).
Riscos dos produtos sem registro
As canetas sem registro são mais baratas, mas a Anvisa alerta para casos de falsificação e baixa qualidade. "Quando a população fica suscetível a produto sem registro da Anvisa, ela não tem aquela garantia da tríade básica: segurança, qualidade e eficácia", afirma o presidente da agência, Leandro Safatle. A falta de controle pode levar a riscos à saúde, incluindo efeitos adversos graves.
Medidas de fiscalização e controle
No dia 6 de abril, a Anvisa anunciou cobranças mais rígidas sobre a qualidade do ingrediente farmacêutico importado para farmácias de manipulação. A proposta, que deve ser votada no fim de abril, obriga o uso de ingredientes de laboratórios com Certificado de Boas Práticas de Fabricação (CBPF), garantindo inspeções pela agência ou parceiras. Além disso, a manipulação só poderá ocorrer após apresentação da prescrição médica individual, combatendo a produção em larga escala para venda em clínicas.
Investigações e apreensões
A Polícia Federal investiga irregularidades em farmácias de manipulação, com operações que resultaram na apreensão de carros, avião, embalagens e remédios em novembro de 2025, além de mandados cumpridos em 12 estados no início de abril. Após essas ações, cinco entidades médicas pediram a proibição total da venda das canetas por farmácias de manipulação devido ao risco sanitário. A Anvisa, contudo, ressalta que a legislação permite a produção nesses locais, mas está aperfeiçoando regras para garantir segurança.
Veto a produtos paraguaios
Em outra frente, a Anvisa vetou no dia 14 de abril o uso e venda de duas marcas do Paraguai, Gluconex e Tirzedral, os únicos registrados no país vizinho ainda não barrados. Agora, não é mais permitido importar esses emagrecedores, nem mesmo para uso pessoal. A venda no Paraguai é impulsionada por influenciadores e marketing agressivo, com lançamentos luxuosos, como o evento "Noite Vermelha" do laboratório Catedral, com show de Zé Felipe voltado ao público brasileiro.
Preocupações médicas e mercado irregular
As canetas são medicamentos agonistas de GLP-1, indicados para obesidade e diabetes, mas o uso desenfreado de versões sem registro ou para fins estéticos preocupa entidades médicas. O volume de produtos irregulares em circulação é incerto, mas dados oficiais sinalizam alta no consumo. A Receita Federal apreendeu 32,8 mil unidades em 2025, contra 2.700 no ano anterior, e localizou cerca de 1 tonelada de ingredientes irregulares apenas em Viracopos (SP) desde janeiro.
Pressões políticas e sociais
Os movimentos da Anvisa são vistos como necessários, mas delicados devido a reações negativas de consumidores e risco de judicialização ou intervenção do Congresso. Gestores locais cobram o uso das canetas no SUS, como o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), que lançou programa com Ozempic, e a Prefeitura de Urupês (SP), que tentou licitação para tirzepatida manipulada. Comentários em publicação do ministro da Saúde, Alexandre Padilha (PT), sobre riscos de falsificações, incluíram críticas de restrição de acesso e proposta do deputado Mario Heringer (PDT-MG) para quebrar patentes.
Futuro do mercado
Auxiliares de Padilha avaliam que a pressão por acesso a produtos do Paraguai ou manipulados pode reduzir com o registro de novas marcas no Brasil. A Anvisa avalia 16 produtos contendo semaglutida, princípio ativo do Ozempic que perdeu patente no fim de março, indicando possíveis mudanças no cenário regulatório.



