Excesso de telas: danos à saúde mental e física se intensificam entre jovens
Hiperconectividade: jovens são os que mais sentem danos na saúde mental. Viajar, se localizar dentro de uma cidade desconhecida… hoje soa quase absurdo — para alguns — imaginar que tudo isso já não esteve na palma da mão, por meio de um GPS. Ou que, antes, os contatos mais diversos estivessem complicados em uma lista telefônica à la Dicionário Aurélio. Ou, ainda, que relações não fossem mediadas por algoritmos de aplicativos como Tinder ou Bumble e que encontros acontecessem sem a facilidade de uma mensagem de WhatsApp.
Os tempos são outros. Há, sem dúvida, mais praticidade. Mas quase tudo passa, inevitavelmente, por uma tela de celular: das experiências cotidianas ao trabalho, das relações afetivas à própria construção da identidade. O problema é que essa mesma ferramenta que encurta distâncias e simplifica rotinas também começa a cobrar seu preço. E ele não é pequeno.
Pesquisas apontam lista crescente de danos associados à hiperconectividade
Pesquisas e especialistas apontam, cada vez mais, para uma lista crescente de danos associados à hiperconectividade, que vai de problemas de visão, dores musculoesqueléticas a impactos importantes na saúde mental. O tema chegou, inclusive, à Câmara dos Deputados, onde parlamentares discutem a inclusão de advertências sobre os riscos do uso prolongado na coluna. Em texto apresentado em março, a proposta estabelece que os aparelhos tragam a frase em caixa alta: “Use com moderação. O uso excessivo prejudica a coluna cervical”.
No Brasil, as dimensões do problema estão longe de ser triviais. O país está entre os que mais passam tempo online: em média, 9 horas e 32 minutos por dia — acima da média global de 6 horas e 37 minutos e também de nações altamente conectadas, como o Japão. Uma parcela relevante desse tempo é dedicada às redes sociais, que ocupam mais de um quinto do dia. E quem sai perdendo, na maioria das vezes, é a saúde mental.
Ciclo da hiperconectividade e impactos na saúde mental
Segundo a psicóloga Carla Cavalheiro, do Instituto de Psiquiatria (IPq) da Universidade de São Paulo (USP), os impactos do uso excessivo de telas não ocorrem de forma isolada, mas se organizam em um ciclo que tende a se retroalimentar, frequentemente associado a quadros de ansiedade e depressão. Em muitos casos, o ambiente digital surge como uma tentativa de alívio imediato para o sofrimento psíquico; em outros, acaba intensificando sintomas já existentes. “É uma via de mão dupla”, resume a especialista.
Um dos principais motores desse processo é a comparação social. A exposição contínua a conteúdos filtrados, idealizados e muitas vezes inalcançáveis pode distorcer a percepção de realidade e alimentar sentimentos de inadequação, frustração e baixa autoestima. Ao mesmo tempo, a lógica de validação — mediada por curtidas, comentários e visualizações — reforça a busca por reconhecimento externo, aprofundando o vínculo com as plataformas.
Jovens como grupo mais atingido pelos efeitos do uso excessivo
Nesse cenário, os jovens aparecem como o grupo mais atingido. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 88,9% da população brasileira na faixa dos 10 anos — aquela que costumava dar asas à imaginação para bolar brincadeiras com os amigos do bairro — já possui celular para uso pessoal. “Quando a gente fala de crianças e adolescentes, estamos falando de cérebros em desenvolvimento, especialmente do córtex pré-frontal, que é responsável pela capacidade de frear impulsos e avaliar consequências”, explica Cavalheiro.
Na prática, isso significa que a capacidade de autorregulação — essencial para lidar com estímulos constantes, recompensas imediatas e validação social típica das redes — ainda está em construção. E, segundo a especialista, isso ajuda a entender por que esse grupo aparece com mais frequência entre os mais vulneráveis aos efeitos do uso excessivo de telas.
Dados recentes reforçam alerta sobre sintomas de ansiedade e irritabilidade
Os dados mais recentes reforçam o alerta. Em 2025, uma pesquisa do Projeto Brief apontou que quase metade das crianças e adolescentes brasileiros apresenta sinais de ansiedade, irritabilidade ou dificuldade de foco associados ao tempo excessivo de tela. Entre os pais, 46% relatam esses sintomas nos filhos, enquanto 8% afirmam que eles já sofreram episódios de assédio ou abuso digital, índice que dobra entre meninas de 13 a 15 anos.
Diante desse cenário, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda limites claros para o uso de telas conforme a idade:
- Até uma hora por dia para crianças de 2 a 5 anos
- Entre uma e duas horas para aquelas de 6 a 10 anos
- De duas a três horas diárias para adolescentes de 11 a 18 anos
A entidade também orienta que o uso seja sempre acompanhado por um adulto.
Efeitos além da mente: corpo também entra na conta
Mas não é só a saúde mental que sai prejudicada. Aos poucos, o corpo também entra na conta. Além dos impactos na visão e da relação com a epidemia de obesidade — reflexo, em parte, do sedentarismo —, a primeira cobrança costuma vir da coluna. A cena é conhecida: cabeça inclinada, ombros projetados para frente, olhar fixo na tela. É daí que surge o já batizado “tech neck”, ou pescoço tecnológico.
Não se trata apenas de um termo moderno, mas de uma sobrecarga física bem mensurável. Em posição ereta, a cabeça pesa cerca de 5 kg. Inclinada para frente, esse peso pode se multiplicar várias vezes, como se o pescoço passasse a sustentar algo próximo ao de uma criança pequena. “Repetido à exaustão, esse gesto vai moldando dores persistentes, prejudicando especialmente a região cervical, seguida por ombros, cintura escapular, punhos, mãos, polegares e dedos”, descreve o ortopedista Luiz Felipe Ambra, do Hospital M’Boi Mirim, gerido pelo Einstein Hospital Israelista.
E como se não bastasse, as posições que sustentam o uso do celular também favorecem o surgimento de rugas. Sim, rugas. Um estudo conduzido pela Universidade Chung-Ang, na Coreia do Sul, observou que mulheres a partir dos 29 anos já apresentavam vincos no pescoço — um sinal que, tradicionalmente, surgiria apenas depois dos 40.
Hábito comum no banheiro pode favorecer surgimento de hemorroidas
E, na lista de efeitos pouco comentados, há ainda um hábito bastante comum e talvez subestimado. Quem nunca aproveitou alguns minutos a mais no banheiro para dar uma olhada no celular? Ler notícias, checar redes sociais, assistir a vídeos… o problema é que esse tempo extra pode cobrar seu preço. Permanecer sentado no vaso sanitário sem necessidade fisiológica, apenas por distração, prolonga a pressão sanguínea na região anal — um fator que favorece o surgimento das famigeradas hemorroidas.
Uso excessivo de telas: dependência comportamental em discussão
Apesar do efeito cascata, o uso excessivo de telas ainda não é oficialmente reconhecido como uma dependência. Embora especialistas já observem o padrão, o termo ainda não aparece como uma classificação diagnóstica formal. Isso não significa, no entanto, que o problema seja menos relevante — pelo contrário. “O que a gente percebe é um prejuízo funcional, sofrimento psíquico, perda de controle. A pessoa continua usando mesmo percebendo os impactos negativos, passa a negligenciar outras áreas da vida e vai empobrecendo as relações e atividades que antes davam prazer”, descreve Cavalheiro.
Do ponto de vista biológico, o mecanismo ajuda a explicar por que é tão difícil “desligar”. Trata-se de uma dependência comportamental — diferente da química, mas que aciona circuitos cerebrais semelhantes. “Estamos falando do sistema de recompensa, ligado à busca por prazer e à dificuldade de freio. O cérebro aprende rapidamente que aquilo gera uma recompensa imediata e passa a querer repetir”, explica a especialista.
Iniciativas de tratamento para dependência digital ganham espaço
Esse cenário começa, inclusive, a mobilizar iniciativas voltadas especificamente para o tratamento do problema. Em São Paulo, por exemplo, a Elibrè, centro de tratamento em saúde mental, acaba de lançar o Programa Elibrè para Dependências Digitais, voltado para adolescentes a partir dos 12 anos e jovens adultos que apresentam uso excessivo e prejudicial de telas.
A proposta dialoga com outras iniciativas já em andamento. No Instituto de Psiquiatria (IPq) da USP, o Ambulatório dos Transtornos do Impulso do PRO-AMITI — do qual Cavalheiro atua como psicóloga coordenadora – oferece tratamento gratuito para adultos com dependência tecnológica, incluindo compulsão por internet, videogames ou celular.
Autorregulação e papel das big techs no debate público
No fim, o que se desenha é um retrato curioso: o mesmo dispositivo que concentra o mundo na palma da mão também distribui seus efeitos pelo corpo. Por isso, especialistas passam a insistir em algo que parece simples, mas está longe de ser trivial: a autorregulação. Segundo Cavalheiro, isso começa por reconhecer que as redes não são neutras, mas desenhadas para capturar atenção, prolongar o uso e estimular o engajamento contínuo.
“Entender esse mecanismo é o primeiro passo para, então, tentar restabelecer algum equilíbrio entre o online e o offline”, defende a psicóloga. Mas esse ajuste não pode recair apenas sobre o indivíduo. À medida que os efeitos se tornam mais evidentes, cresce também a pressão para que o debate avance além do uso pessoal e alcance o papel das big techs e do poder público — seja na criação de regras mais claras, seja no desenvolvimento de ferramentas de controle mais acessíveis, especialmente para os mais jovens.



