Psicóloga de Harvard compartilha experiência pessoal com filho que sente emoções intensamente
A psicóloga Luana Marques, professora da Universidade Harvard, está aprendendo na prática o que ensina em suas pesquisas sobre emoções. Durante mais de duas décadas estudando o comportamento humano, ela nunca imaginou que enfrentaria um desafio tão profundo dentro de sua própria família.
O despertar para uma realidade diferente
Diego, seu filho de oito anos, sempre demonstrou intensidade emocional em situações cotidianas. A família brincava sobre sua personalidade marcante, mas a situação se complicou com a mudança para uma nova escola. Os professores relatavam respostas consideradas desrespeitosas, enquanto em casa Diego alternava entre explosões emocionais e completo fechamento.
"Eu usei todas as técnicas que conheço", relata Luana. "Reforço positivo, pausas reflexivas, validação de sentimentos, sistemas de recompensa. Nada parecia funcionar." A psicóloga racionalizava o comportamento como uma fase normal do desenvolvimento infantil, até que um episódio mudou completamente sua perspectiva.
O momento crucial de compreensão
Quando Diego olhou para ela com olhos vermelhos e corpo tenso, perguntando por que não o enviava para um orfanato, Luana percebeu que estava diante de algo muito mais profundo do que simples desafio comportamental. "Ele não estava sendo desafiador ou manipulador", compreendeu. "Ele estava sentindo vergonha."
A psicóloga explica a diferença crucial entre culpa e vergonha. Enquanto a culpa leva à reparação ("Eu fiz algo errado"), a vergonha gera ameaça existencial ("Eu sou errado"). Para uma criança, essa sensação se traduz no medo profundo de perder o vínculo afetivo com quem ama.
Crianças que sentem profundamente
Luana descobriu que Diego se encaixa no perfil das "deeply feeling kids" - crianças cujo sistema nervoso processa emoções de forma mais intensa. O que para outras crianças representa leve desconforto, para elas significa ameaça real à sensação de pertencimento.
"Quando tentava conversar sobre seu comportamento, o corpo do Diego interpretava como confirmação de que era um problema", explica a psicóloga. "Cada explosão emocional reforçava sua crença de que era 'um menino mau'."
O difícil processo de desaprendizado
O maior desafio para Luana não foi compreender a ciência por trás do comportamento do filho, mas confrontar sua própria culpa como mãe e profissional. "Eu ensino que cada cérebro funciona de maneira única, mas estava aplicando técnicas comportamentais padronizadas", reconhece.
A psicóloga estava tratando vergonha como se fosse desobediência, evitando encarar que o cérebro de seu filho não seguia os manuais que ela conhecia tão bem. "Estou aprendendo em tempo real que criar uma criança que sente profundamente exige desaprender muito do que me ensinaram", compartilha.
A transformação na abordagem
Luana compreendeu que Diego não precisava de mais técnicas comportamentais. Quando ele dizia "eu sou um menino mau", estava realmente perguntando: "Eu ainda pertenço?"
A nova abordagem prioriza segurança antes do aprendizado, vínculo antes da correção. "Antes de falar sobre comportamento, antes de corrigir, antes de ensinar - ele precisa ouvir: 'Você pertence aqui. Sempre'", afirma a psicóloga.
Um chamado para outros pais
Luana escreve sua coluna não apenas como especialista, mas como mãe em processo de aprendizado. "Se você tem um filho que se fecha quando tenta conversar, se já tentou todas as técnicas sem sucesso, se já ouviu 'eu sou ruim' sem saber responder", reflete, "talvez você também tenha uma criança que sente profundamente."
A mensagem central é transformadora: o que essas crianças mais necessitam não é correção comportamental, mas a afirmação constante de seu lugar no mundo e no coração da família. "Você pertence aqui. Sempre" tornou-se o mantra que está redefinindo a relação entre Luana e Diego, oferecendo esperança para famílias em situações similares.
