Campinas enfrenta aumento significativo em processos por erros cirúrgicos em 2025
A cidade de Campinas, no interior de São Paulo, registrou um aumento preocupante de 14,9% no número de processos judiciais relacionados a problemas em cirurgias no ano de 2025, conforme dados divulgados pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Até o dia 30 de novembro, foram contabilizadas 77 ações envolvendo procedimentos cirúrgicos gerais, de urgência e eletivas no município. Em comparação, durante todo o ano de 2024, o total havia sido de 67 processos, evidenciando uma tendência de crescimento nas demandas judiciais na área da saúde.
Levantamento nacional revela panorama alarmante
Os números de Campinas integram um levantamento nacional realizado pela Sociedade Brasileira para a Qualidade do Cuidado e Segurança do Paciente (Sobrasp). Em âmbito nacional, até o final de novembro de 2025, o Brasil registrou 66.097 novos processos desse tipo, enquanto no ano anterior, 2024, o total foi de 68.203 ações. Apesar de uma leve redução no cenário nacional, os dados locais em Campinas apontam para uma situação crítica que merece atenção.
Entre os incidentes mais frequentemente associados a centros cirúrgicos e que geram processos judiciais, destacam-se:
- Objetos esquecidos no corpo do paciente após a cirurgia
- Procedimentos realizados em local ou lado errado do corpo
- Intervenções feitas no paciente errado
No estado de São Paulo, até 30 de novembro de 2025, foram registrados 5.021 processos relacionados a cirurgias, um número ligeiramente inferior aos 5.090 ações contabilizadas ao longo de todo o ano de 2024.
Caso real ilustra as graves consequências dos erros médicos
A decoradora Maria Rosa Ribeiro da Costa, residente em Campinas, viveu uma experiência traumática que exemplifica os riscos envolvidos. Em agosto de 2024, ela passou por uma cirurgia ginecológica para retirada do útero devido a uma endometriose, um caso considerado simples inicialmente. No entanto, após a alta, as dores se intensificaram de forma alarmante.
“Comecei a sentir dores muito fortes e não conseguia nem me mexer”, relatou Maria Rosa. Ela precisou ser socorrida pelo Samu e levada ao hospital onde havia sido operada, mas enfrentou resistência no atendimento devido a questões com seu convênio médico, a operadora GoCare.
Exames posteriores revelaram uma lesão grave: “Tinha realmente cortado um dos meus ureteres. Eu estava com um dos ureteres cortado e estava vazando urina por dentro”, disse ela. Maria Rosa passou por uma nova cirurgia de emergência para implantar um cateter, mas enfrentou dificuldades para a retirada do dispositivo, o que levou a uma sepse. Ela destacou a falta de suporte durante todo o processo: “Não tive apoio nenhum do convênio, não tive apoio nenhum do hospital”.
Em resposta, o convênio GoCare emitiu uma nota afirmando que “não houve qualquer falha, negativa ou desatendimento por parte da operadora de saúde”, detalhando que todos os atendimentos foram autorizados e realizados. O Hospital Irmãos Penteado, onde a cirurgia foi realizada, não se manifestou até a publicação da reportagem.
Especialista destaca a importância de protocolos de segurança
Para o anestesiologista Luís Antônio Diego, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e membro da Sobrasp, a divulgação desses dados é crucial para ampliar o debate sobre a segurança dos pacientes. Ele enfatizou que eventos adversos evitáveis não são exclusivos da medicina, mas ocorrem em diversas áreas.
Diego ressaltou a existência de protocolos específicos, como o “Checklist de Cirurgia Segura”, adotado por órgãos internacionais e nacionais, mas que ainda não é obrigatório em todos os serviços de saúde. Este checklist inclui etapas antes da anestesia, antes do início da cirurgia e antes da saída do paciente da sala, visando prevenir falhas como a retenção de objetos no corpo.
“Não é uma resolução da diretoria colegiada da Anvisa que obriga o checklist a ser feito. É uma recomendação. Infelizmente, não são todos que fazem”, explicou o especialista. Ele também destacou o papel ativo do paciente na prevenção: “Hoje se recomenda que o paciente seja uma parte envolvida também nessa questão. Se ele souber disso, ele vai exigir um checklist, ele vai exigir que confiram, por exemplo, a pulseira, o identificador, o nome, a data de nascimento”.
Este caso em Campinas serve como um alerta para a necessidade de maior rigor e adoção de medidas preventivas no setor de saúde, visando proteger os pacientes e reduzir os índices de judicialização por erros médicos.