El Niño vai além do clima e impacta diretamente a saúde respiratória da população
O fenômeno climático El Niño, que pode ser mais intenso neste ano de 2026, está diretamente associado ao agravamento de problemas de saúde como alergias e asma. Segundo a médica Fátima Rodrigues Fernandes, pediatra e presidente da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), as alterações nos padrões de temperatura, umidade e regime de chuvas modificam profundamente o ambiente, refletindo-se no aumento de sintomas alérgicos e exacerbações de asma.
Mecanismos que intensificam os problemas respiratórios
Um dos principais mecanismos envolve o aumento das temperaturas médias e a maior frequência de eventos extremos. O calor e a instabilidade climática favorecem a formação e dispersão de poluentes atmosféricos, como material particulado e ozônio, que têm efeito inflamatório direto nas vias aéreas. Esses poluentes aumentam a permeabilidade da mucosa respiratória, facilitando a entrada de alérgenos e intensificando a resposta inflamatória.
Além disso, mudanças no regime de chuvas e na umidade influenciam significativamente a concentração de aeroalérgenos. Períodos mais quentes e úmidos podem prolongar a estação de polinização e aumentar a carga de pólen no ar. Já chuvas intensas e tempestades podem fragmentar partículas de pólen em frações menores, capazes de penetrar mais profundamente nas vias aéreas — fenômeno associado a crises de asma.
Impacto das inundações e proliferação de fungos
Outro aspecto central — e muitas vezes subestimado — é o impacto das inundações, mais frequentes durante eventos de El Niño. Ambientes alagados e úmidos favorecem a proliferação de fungos e ácaros, dois dos principais gatilhos de doenças alérgicas. Após enchentes, residências frequentemente apresentam aumento significativo de mofo em paredes, móveis e sistemas de ventilação, elevando a exposição a esporos fúngicos inaláveis.
Esses microrganismos têm alta capacidade de induzir inflamação das vias aéreas e exacerbar tanto rinite quanto asma. As inundações também alteram profundamente a microbiota ambiental e humana. A perda de biodiversidade microbiana e a exposição a microrganismos ambientais atípicos favorecem estados de disbiose e desregulação imunológica, com impacto direto na integridade das barreiras epiteliais e na resposta inflamatória.
Eventos extremos e qualidade do ar comprometida
Eventos extremos associados ao El Niño — como ondas de calor, queimadas e secas — também pioram a qualidade do ar. A exposição a esses fatores está relacionada ao aumento de exacerbações de asma, maior uso de medicações de resgate e crescimento das hospitalizações, especialmente em populações vulneráveis, como crianças e idosos.
Por fim, o El Niño atua como um verdadeiro amplificador de riscos ambientais. Ele não cria as doenças alérgicas, mas intensifica os fatores que desencadeiam e agravam essas condições: poluição, aeroalérgenos, calor extremo, umidade excessiva e alterações da microbiota. Em um cenário de mudanças climáticas globais, esses eventos tendem a se tornar mais frequentes e intensos.
Medidas preventivas e orientações clínicas
Compreender essa relação é essencial para antecipar riscos, orientar pacientes — especialmente após períodos de chuva intensa e enchentes — e reforçar medidas de controle ambiental. Entre as recomendações estão:
- Ventilação adequada dos ambientes
- Redução da umidade interna
- Manejo eficaz de mofo domiciliar
- Monitoramento da qualidade do ar
- Acompanhamento médico regular para grupos de risco
Trata-se de incorporar, definitivamente, a variável climática à prática clínica e à prevenção das doenças alérgicas, garantindo melhor qualidade de vida para a população em meio às mudanças ambientais.



