Câncer de pulmão em não fumantes cresce no RS e acende alerta sobre novos fatores de risco
Pesquisas recentes apontam para um fenômeno preocupante no Rio Grande do Sul: o aumento significativo de casos de câncer de pulmão em pessoas que nunca fumaram. Embora o tabagismo ainda seja responsável por 85% dos diagnósticos, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), novos fatores de risco estão emergindo e transformando o perfil da doença, que se consolidou como a principal causa de morte por câncer no estado no ano passado.
Mudança no perfil dos pacientes
No Rio Grande do Sul, estatísticas revelam que aproximadamente um em cada 12 mil gaúchos recebeu o diagnóstico de câncer de pulmão em 2024. O caso da assistente social Camila Alves Espinosa exemplifica essa mudança no perfil dos pacientes. Sem histórico de tabagismo ou familiar, ela foi diagnosticada com a doença há um ano e meio, após apresentar sintomas como fadiga extrema e emagrecimento inexplicável.
"Eu tive uma fadiga, me sentia cansada em atividades mínimas. Comecei a perder forças e notei que meu organismo não estava com uma saúde exata", relata Camila. Diante da falta de acesso ao medicamento indicado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), ela precisou criar uma vaquinha online e buscar apoio judicial para garantir seu tratamento. "Fui em busca porque é a valorização à vida. Eu quero viver muito ainda", afirma com determinação.
Adenocarcinoma e fatores de risco emergentes
O câncer de pulmão ocorre quando células do tecido pulmonar se multiplicam descontroladamente, formando tumores. O tipo que afetou Camila é o adenocarcinoma, atualmente o mais frequente e que frequentemente atinge pessoas que nunca fumaram, pois se desenvolve em regiões mais profundas dos pulmões. Em contraste, o carcinoma de células escamosas permanece mais associado ao tabagismo.
Estudos da OMS destacam um crescimento particular nos diagnósticos entre mulheres não fumantes. Para essa população, mais da metade dos casos está diretamente relacionada à poluição do ar. A pneumologista Manuela Cavalcanti, coordenadora do programa de rastreamento de câncer de pulmão da Santa Casa de Porto Alegre, alerta para outros fatores ambientais:
- Poluição atmosférica e partículas finas
- Queima de biomassa, como fogões a lenha e carvão
- Ambientes com alta concentração de fumaça de fritura
"Temos que lembrar da poluição, das partículas finas, da queima de biomassa, fogões a lenha, carvão, até ambientes com muita fritura", detalha a especialista.
Desafios do diagnóstico precoce
A natureza silenciosa da doença representa um obstáculo significativo para a detecção precoce. "Somente 15% dos casos são descobertos no estágio inicial, quando ainda posso oferecer cirurgia e chance real de cura", explica a pneumologista. Por isso, é fundamental investigar sintomas persistentes como:
- Tosse que dura mais de seis meses
- Falta de ar progressiva
- Dor no peito ou desconforto no ombro
- Rouquidão inexplicável
- Perda de peso sem motivo aparente
"Não é incomum o paciente vir com uma tosse há seis meses ou um desconforto no ombro. Pequenos sintomas são sintomas. Tosse não é uma doença, é um sinal", reforça a médica.
Esperança nos avanços do tratamento
Apesar dos desafios, os progressos na área médica trazem otimismo. "O diagnóstico de câncer de pulmão não é mais uma sentença de morte. Os tratamentos mudaram muito", conclui Manuela Cavalcanti. A paciente Camila deixa um recado importante para a população: "Quero alertar as pessoas: façam seus pré-diagnósticos, façam a prevenção, porque o câncer chega e ele não dá sinais. Qualquer dor no peito, não pense que é ansiedade. Foi o que aconteceu comigo".
A conscientização sobre os novos fatores de risco e a importância do diagnóstico precoce se tornam cada vez mais cruciais no combate ao câncer de pulmão, especialmente entre aqueles que nunca fumaram mas estão expostos a riscos ambientais crescentes no Rio Grande do Sul.



