Livro de Michel Gherman desvenda instrumentalização da religião por grupos políticos extremistas
Em seu novo livro, o historiador e sociólogo Michel Gherman, em parceria com o teólogo Ronilso Pacheco, analisa profundamente como líderes autoritários vêm instrumentalizando a religião para mobilizar suas bases políticas. A obra "Diálogos em tempos difíceis: decifrando a gramática da nova extrema direita" (Editora Fósforo) surge como ferramenta essencial para compreender não apenas o cenário brasileiro contemporâneo, mas também tendências globais que transformam discursos religiosos em armas políticas.
A gramática do extremismo e a pedagogia do ódio
Gherman argumenta que esses grupos políticos utilizam retóricas de destruição e linguagens específicas para promover o que ele denomina "pedagogia do ódio". Segundo o historiador, essa pedagogia consiste em um processo sistemático onde as pessoas são "letradas dentro do ódio" através do consumo constante de material conspiracionista e denúncias, principalmente nas redes sociais e em encontros comunitários.
"Essa pedagogia tem a ver com vínculos profundos com a não escuta do outro, tem a ver com o desejo de destruição de quem discorda de mim", explica Gherman. "Eles aprendem a odiar, aprendem quem odiar, aprendem como odiar."
O fenômeno do sionismo cristão no Brasil
Um dos conceitos centrais discutidos no livro é o chamado "sionismo cristão", que ganhou força significativa no Brasil nos últimos anos. Gherman e Pacheco analisam como essa posição política representa uma distorção tanto do sionismo quanto do cristianismo, transformando-se em uma gramática religiosa utilizada para justificar agendas de ocupação, extermínio e domínio.
"O sionismo cristão tem a ver com um desejo de transformação do mundo num lugar de pessoas plenamente iguais, que pensam necessariamente igual e não convivem com a diferença", afirma o historiador.
Representações imaginárias versus realidade
O livro introduz o conceito de "judeu imaginário" versus o judeu real, demonstrando como a extrema direita prefere representações idealizadas que eliminam contradições e dúvidas. O mesmo processo ocorre com evangélicos que não se alinham politicamente com esses grupos extremistas.
"O judeu real incomoda. O judeu real é contraditório. O judeu real tem dúvidas", observa Gherman. "O judeu imaginário não é contraditório, não tem dúvidas e tem uma dimensão identitária absolutamente linear."
Disputa pela religião e busca por novas utopias
Para combater essa instrumentalização, Gherman defende que grupos progressistas devem disputar a religião em vez de tentar superá-la. Ele propõe uma religião baseada no letramento da inclusão e solidariedade, em contraste com a produzida a partir do ódio e exclusão.
O historiador também enfatiza a necessidade de criar novas utopias inclusivas e democráticas para contrapor a utopia distópica oferecida pela extrema direita, que idealiza um passado construído através da destruição do presente.
Debates sobre antissemitismo no Brasil
Gherman comenta ainda sobre os debates em Brasília sobre definições de antissemitismo, destacando a importância de discussões abertas que considerem perspectivas diversas. Ele expressa preocupação com propostas simplórias que possam silenciar o debate público, defendendo em vez disso processos mais longos e ricos de escuta.
"O antissemitismo produz uma percepção conspiracionista da história e acaba fortalecendo grupos extremistas", alerta o pesquisador, conectando esse fenômeno à gramática política da extrema direita analisada em seu livro.



