Câncer de mama lidera judicializações por acesso a tratamento no Brasil
Câncer de mama lidera judicializações por tratamento no Brasil

Judicialização na saúde: câncer de mama lidera processos por acesso a tratamento

Um levantamento inédito da plataforma de inteligência legal Projuris, obtido com exclusividade, revela os tumores que mais levam pacientes brasileiros a buscar a Justiça para garantir acesso a medicamentos e terapias contra o câncer. A pesquisa analisou 9.599 processos movidos entre 2023 e maio de 2025, mostrando um cenário preocupante de judicialização na saúde oncológica.

Ranking dos cânceres mais judicializados

O estudo aponta que o câncer de mama lidera com folga os episódios de judicialização, representando 20,32% do total de ações. Na sequência aparecem:

  1. Câncer de sangue: 11,12%
  2. Câncer de próstata: 10,10%
  3. Câncer de colo do útero/endométrio/ovários: 9,67%
  4. Câncer de pulmão: 8,86%

"Os dados indicam que a judicialização ocorre, em grande parte, quando há dificuldades práticas no acesso ao tratamento prescrito, especialmente no fornecimento de medicamentos", explica Fernando Ribeiro, diretor de Produto do Projuris.

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Medicamentos de alto custo e principais motivos das ações

Os medicamentos que mais geram processos são imunoterapias e terapias-alvo, tratamentos considerados mais inovadores, com doses que podem custar entre R$ 2 mil e R$ 10 mil. No topo do ranking estão:

  • Bevacizumabe (17,9%)
  • Nivolumabe (16,1%)
  • Abemaciclibe (15,8%)
  • Olaparibe (8,1%)
  • Abiraterona (7,9%)
  • Daratumumabe/lenalidomida (6%)

O estudo mostra que 66,68% das ações envolvem pedidos de fornecimento de medicamentos ou insumos. Outros motivos frequentes incluem:

  • Tratamento e acompanhamento hospitalar (9,73%)
  • Quimioterapia, imunoterapia e radioterapia (8,75%)
  • Exames (4,34%)
  • Procedimentos cirúrgicos (4,08%)

SUS e planos de saúde como réus

A pesquisa revela que 48,79% das ações foram movidas contra o Sistema Único de Saúde (SUS), enquanto 37,28% tiveram planos de saúde como réus. Outros 13,93% se referem a instituições privadas como seguradoras e entidades de previdência fechada.

"Embora o Brasil tenha diretrizes que garantem o tratamento oncológico, o estudo mostra lacunas entre a previsão legal e a efetiva disponibilidade do tratamento no tempo necessário", completa Ribeiro.

Resposta do Ministério da Saúde

Em nota, o Ministério da Saúde informou que tem ampliado o diagnóstico e tratamento do câncer através do programa Agora Tem Especialistas, iniciativa focada em reduzir o tempo de espera por consultas, exames e cirurgias.

Segundo a pasta, o SUS bateu recorde na realização de quimioterapias no ano passado, com quase 7 milhões de procedimentos até novembro. No mesmo período, foram realizadas 379 mil cirurgias oncológicas e 171,6 mil radioterapias.

A expansão ocorre ainda em parceria com a rede privada através de cinco hospitais que ofertam procedimentos de alta e média complexidade para pacientes do SUS, como remoção de tumores de mama ou útero.

Eficácia da Justiça e urgência reconhecida

Apesar da sobrecarga no sistema judiciário, a pesquisa mostra que a Justiça tem reconhecido a urgência dos casos: 86,3% dos pedidos de tutela de urgência são deferidos.

"O recurso ao judiciário pode significar atrasos, custos adicionais e insegurança, já que parte dos processos ainda aguarda decisão definitiva", afirma Ribeiro, destacando o desgaste enfrentado pelos pacientes em momento tão delicado.

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) não se manifestou até o fechamento da reportagem, mantendo o espaço aberto para posicionamentos.

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