Manifestantes na Venezuela exigem aumento salarial em meio à inflação de 600%
Centenas de trabalhadores e aposentados tomaram as ruas de Caracas nesta segunda-feira, 23 de março de 2026, para protestar contra os salários e aposentadorias que classificam como "de fome" e "de morte". Os valores estão congelados há quatro anos e foram severamente corroídos por uma inflação anual que ultrapassa os 600%, criando uma situação de extrema dificuldade para a população venezuelana.
Salário mínimo equivalente a 28 centavos de dólar
Atualmente, o salário mínimo na Venezuela equivale a apenas 28 centavos de dólar, aproximadamente R$ 1,46. O último ajuste foi decretado em 2022 pelo então presidente Nicolás Maduro, estabelecendo uma renda base de 28 dólares, cerca de R$ 146. Mesmo com a adição de bônus estatais, que podem elevar a renda total para até 150 dólares (R$ 786), o valor continua insuficiente diante do custo estimado da cesta básica de alimentos para uma família, que chega a 645 dólares (R$ 3.380).
A aposentada Pilar Navarro, de 72 anos, expressou sua frustração à agência de notícias AFP: "Isso já não é um salário! O que alguém vai fazer com essa aposentadoria que não dá para nada? Se não fosse meu filho, que me ajuda, eu não poderia comprar meus remédios". Sua declaração reflete o desespero de muitos venezuelanos que dependem de ajuda familiar para sobreviver.
Protesto bloqueado por chavistas e policiais
Os manifestantes pretendiam marchar até o Ministério do Trabalho para entregar suas demandas, mas foram impedidos por um grupo de motociclistas partidários do chavismo e por policiais antimotim. Durante o protesto, cartazes com mensagens como "Free the salario" foram exibidos, em uma alusão irônica ao slogan governista "Free Maduro", usado pelos chavistas para pedir a libertação do ex-mandatário, preso em Nova York.
Além disso, mulheres seguravam cartazes com os dizeres "Trump, levante o bloqueio agora!", "Sanções não, prosperidade sim!" e "Nossos bens pertencem ao povo, devolvam-nos!", destacando a demanda pelo levantamento completo das sanções americanas, que muitos atribuem como causa dos problemas econômicos do país.
Exigências por uso de receitas do petróleo
Os sindicatos envolvidos no protesto exigem que o salário mínimo seja elevado para US$ 200 (R$ 1.048). Eles argumentam que os recursos do fundo criado com receitas do petróleo, administrado pelos Estados Unidos, devem ser utilizados para esse fim. Este fundo surge no contexto de uma nova relação com a presidente interina Delcy Rodríguez, que assumiu o poder após a deposição de Nicolás Maduro em uma operação militar dos Estados Unidos em janeiro.
Griselda Sánchez, uma dirigente sindical, afirmou: "Se entrou dinheiro do petróleo no fundo, devem utilizá-lo para aumentar os salários". No entanto, economistas concordam que a Venezuela não está em condições financeiras de atender a essa demanda no nível exigido pelos trabalhadores, devido à grave crise econômica que assola o país.
Chavistas marcham contra sanções internacionais
Em paralelo aos protestos por aumentos salariais, simpatizantes do chavismo organizaram sua própria marcha para exigir o fim das sanções internacionais. Eles atribuem todas as dificuldades econômicas da Venezuela a essas medidas, que foram parcialmente flexibilizadas por Washington após a queda de Maduro.
Diosdado Cabello, ministro do Interior e influente dirigente chavista, declarou: "Sem sanções, podemos tratar melhor a questão dos salários". Sua fala reflete a posição do governo interino de que a remoção das restrições internacionais é essencial para qualquer melhoria na economia e no bem-estar da população.
Esta manifestação coloca um novo, embora ainda limitado, grau de pressão sobre o governo de Delcy Rodríguez, que enfrenta o desafio de equilibrar demandas populares com as realidades econômicas do país. A página do governo interino mostra receitas de US$ 300 milhões (R$ 1,57 bilhão) e despesas no mesmo valor sob o conceito de "aumento da renda mínima integral", mas sem fornecer detalhes específicos sobre como esses recursos estão sendo aplicados.



