Venezuela pós-Maduro: abertura econômica e tutela dos EUA sob Delcy Rodríguez
Um mês após a operação militar dos Estados Unidos que derrubou o ditador venezuelano Nicolás Maduro, a incerteza ainda reina em Caracas. A queda do líder chavista, que governou com punho de ferro por doze anos, trouxe alívio imediato para muitos, mas também efeitos incertos em um país que agora opera nas mãos de Delcy Rodríguez, ex-vice-presidente que lidera mudanças sob pressão de Washington.
Estabilidade tutelada e reaproximação com os EUA
Após o bombardeio que resultou na captura de Maduro e na morte de quase 100 pessoas, o presidente americano Donald Trump evitou uma ruptura completa, optando por uma estabilidade tutelada. Rodríguez mantém o chavismo no poder, mas sob influência direta dos Estados Unidos. Trump já a chamou de formidável e convidou-a para uma visita à Casa Branca, enquanto as relações diplomáticas, rompidas em 2019, são retomadas gradualmente.
No entanto, o secretário de Estado Marco Rubio alertou Rodríguez que ela poderia sofrer o mesmo destino de Maduro se não se alinhar aos objetivos de Washington. A nova chefe da missão diplomática americana, Laura Dogu, enfatizou que a transição para uma Venezuela amigável, estável, próspera e democrática faz parte da agenda.
Abertura do setor petroleiro e reformas econômicas
A Venezuela aprovou uma reforma em sua lei do petróleo, revogando a nacionalização de 1976 e o modelo estatista imposto por Hugo Chávez. Agora, empresas privadas, como a Chevron, podem operar de forma independente, com flexibilização de royalties e impostos. Analistas acreditam que essa mudança foi determinada pelos EUA para atrair investimentos.
Francisco Monaldi, professor e analista de petróleo, explicou que essa é a única maneira de obter os cerca de US$ 150 bilhões necessários para revitalizar a indústria, duramente atingida por corrupção e má gestão. Trump já assumiu o controle de algumas vendas de petróleo venezuelano, gerando uma receita inicial de US$ 500 milhões.
Governo interino e propaganda chavista
Rodríguez lidera o governo de forma interina, mas não convocou eleições como previsto pela Constituição após 30 dias de vacância. Ela substituiu ministros e oficiais militares, embora figuras influentes como Diosdado Cabello e Vladimir Padrino permaneçam em seus cargos. A reaproximação com os EUA contrasta com a retórica anti-imperialista do chavismo, que ainda organiza marchas e transmits propaganda estatal exigindo a libertação de Maduro.
Anistia geral e medo persistente
Rodríguez declarou uma anistia geral para presos políticos, que precisa ser aprovada pelo Parlamento. Familiares e grupos de oposição, como o Vente Venezuela de María Corina Machado, têm pressionado pela soltura, com protestos em 130 municípios. A líder interina também anunciou o fechamento do Helicoide, prisão denunciada como centro de torturas.
No entanto, o medo imposto por Maduro diminuiu, mas não desapareceu. Pessoas ainda criticam o governo em sussurros, vivendo uma normalidade tensa. Profissionais da imprensa relatam que a população observa o novo governo com desconfiança, aguardando melhorias econômicas com as vendas de petróleo.
Guillermo Tell Aveledo, professor de Estudos Políticos, descreve a situação como uma liberalização tática, onde o sistema recalibra os custos da repressão. A Venezuela busca um novo equilíbrio, mas o futuro permanece incerto sob a tutela americana e a sombra do chavismo.



