Suprema Corte dos EUA questiona decreto de Trump sobre cidadania por nascimento
Suprema Corte dos EUA questiona decreto de Trump sobre cidadania

Suprema Corte dos Estados Unidos coloca em xeque decreto presidencial sobre cidadania

A Suprema Corte dos Estados Unidos demonstrou significativo ceticismo durante audiência realizada nesta quarta-feira, 1º de abril de 2026, em relação ao decreto assinado pelo presidente Donald Trump que restringe a concessão de cidadania por nascimento em território americano. Magistrados tanto do bloco conservador quanto progressista questionaram abertamente a constitucionalidade da medida, criando um cenário imprevisível para a decisão final que será anunciada em julho.

Argumentação do procurador-geral enfrenta resistência

Durante mais de duas horas de argumentação, o procurador-geral John Sauer defendeu a posição do governo americano, alegando que a maioria das nações não concede cidadania automática por nascimento e que a legislação atual "desmerece o dom inestimável e profundo da cidadania americana". Sauer argumentou ainda que a cidadania por nascimento funciona como "um poderoso fator de atração para a imigração ilegal e recompensa imigrantes ilegais que não apenas violam as leis de imigração, mas também se colocam à frente daqueles que seguem as regras".

Contudo, essas alegações encontraram resistência imediata entre os magistrados. O juiz conservador John Roberts questionou Sauer sobre a veracidade das preocupações com o chamado "turismo de parto", perguntando diretamente: "Você tem alguma informação sobre a frequência disso ou a gravidade do problema?". Em resposta, o procurador-geral admitiu: "Ninguém sabe ao certo", apresentando apenas reportagens sobre empresas de turismo de parto sediadas no exterior como evidência.

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Interpretação da 14ª Emenda divide opiniões

O cerne do debate jurídico gira em torno da interpretação da 14ª Emenda da Constituição americana, que estabelece que "todas as pessoas nascidas ou naturalizadas nos Estados Unidos e sujeitas à sua jurisdição são cidadãs dos Estados Unidos". A administração Trump defende que a expressão "sujeito à jurisdição do país" não inclui filhos de imigrantes em situação irregular ou temporária, incluindo pessoas com visto de trabalho e estudantes universitários.

Esta interpretação foi vigorosamente contestada pela juíza progressista Elena Kagan, que afirmou categoricamente que tal visão "não tem respaldo legal". Dirigindo-se a Sauer, Kagan observou: "Você está usando fontes bastante obscuras para chegar a esse conceito", demonstrando a profundidade das divergências interpretativas que dividem o tribunal.

Impacto potencial atinge proporções históricas

O decreto presidencial, publicado em 20 de janeiro de 2025 - mesmo dia em que Trump retornou à Casa Branca - estabelece que, a partir daquela data, somente pessoas com pelo menos um dos pais cidadão ou residente permanente teriam direito à cidadania americana por nascimento. Caso a Suprema Corte valide esta medida, as consequências seriam profundas e duradouras.

Estimativas levantadas por um grupo de 141 professores indicam que aproximadamente 250 mil crianças nasceriam sem cidadania todos os anos caso a medida seja chancelada. Este cenário criaria um contingente de cerca de 5 milhões de pessoas sem nacionalidade até 2045, um grupo populacional que enfrentaria acesso limitado a educação, saúde e programas de assistência social.

Processo judicial com origem em caso concreto

O caso, conhecido como Trump versus Barbara, teve início quando uma imigrante hondurenha chamada Barbara, residente no estado de New Hampshire, processou o governo federal por considerar inconstitucional a medida que restringe a cidadania americana. O julgamento chegou à Suprema Corte após decisões de instâncias inferiores suspenderem a medida, incluindo uma decisão de fevereiro em que um juiz federal considerou o decreto inconstitucional.

A audiência desta quarta-feira revelou que mesmo a maioria conservadora de 6 a 3 na corte não garante apoio automático às posições do governo, criando um cenário de incerteza jurídica que será resolvido apenas com a decisão final em julho. O resultado não apenas determinará o futuro da política migratória americana, mas também redefinirá conceitos fundamentais de cidadania e pertencimento nacional que perduram há mais de um século.

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