Brasil evita citar Trump e Maduro na ONU em estratégia de cautela máxima
Por que Brasil não cita Trump nem Maduro na ONU?

O governo brasileiro optou por uma postura de extrema cautela diante da prisão do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, ordenada pelos Estados Unidos. Em uma reunião extraordinária do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada em 6 de janeiro de 2026, o embaixador do Brasil, Sérgio Danese, condenou a ação americana por violar o direito internacional, mas evitou cuidadosamente citar os nomes do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, e do líder venezuelano.

O cálculo por trás do silêncio estratégico

Segundo análise do economista e CEO da Amero Group, Igor Lucena, essa postura não é um acaso. Ela reflete um cálculo político, econômico e eleitoral minucioso feito pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O cenário internacional adverso força o Brasil a uma delicada navegação entre dois fronts perigosos.

A principal razão para evitar uma crítica nominal a Donald Trump é de natureza econômica. O Brasil acabara de se beneficiar de uma redução unilateral de tarifas por parte dos Estados Unidos. Um confronto direto poderia levar à reversão imediata desse benefício comercial. "Criticar nominalmente os Estados Unidos seria cutucar a onça com a vara curta", avalia Lucena. O risco seria ver o país incluído rapidamente na lista de alvos comerciais da Casa Branca.

Por outro lado, o silêncio sobre Nicolás Maduro também é intencional e tem motivação interna. Qualquer gesto mais explícito de apoio ao regime venezuelano teria um alto custo político dentro do Brasil. "Mesmo setores da esquerda não aceitam mais uma defesa aberta da Venezuela, vista como ditadura e devedora do Brasil", afirma o economista. Em um cenário pré-eleitoral, associar-se diretamente a Maduro forneceria munição para a oposição, que já critica uma suposta contradição do governo Lula ao falar em democracia enquanto evita confrontar ditaduras.

Uma armadilha diplomática?

Na visão de Igor Lucena, os Estados Unidos conseguiram colocar o Brasil em uma posição extremamente desconfortável, com poucas alternativas viáveis. Ao pressionarem Caracas, também empurram Brasília para um "canto do ringue", forçando o governo a escolher entre dois males: sofrer custos econômicos externos ou enfrentar um desgaste político interno.

O resultado dessa estratégia de cautela, porém, é problemático para a imagem internacional do país. "Ao tentar agradar a todos, o Brasil passa a imagem de um país sem lado, sem posicionamento claro", alerta Lucena. Essa postura, segundo ele, fragiliza a credibilidade internacional da nação e parece repetir erros recentes da política externa, como a tentativa de manter equidistância em conflitos como Rússia e Ucrânia ou Israel e Hamas.

O custo de longo prazo da ambiguidade

Embora a estratégia adotada possa reduzir danos imediatos, especialistas alertam para os efeitos negativos no longo prazo. Um país que consistentemente evita tomar posições claras em crises internacionais tende a ser visto como um parceiro pouco confiável e estratégico.

"Do ponto de vista do Estado brasileiro, isso é péssimo. Mostra fraqueza e falta de visão estratégica", resume Igor Lucena. Entre a pressão de Trump, a complexidade do caso Maduro e a opinião pública doméstica, o governo Lula tenta, na prática, ganhar tempo.

O preço dessa escolha calculada, no entanto, pode ser uma política externa cada vez mais marcada pela ambiguidade e, consequentemente, pela perda gradual do protagonismo que o Brasil já teve em fóruns globais. A diplomacia brasileira se vê encurralada, tentando balancear interesses imediatos com a construção de uma reputação sólida, um desafio que se mostra cada vez mais difícil frente a polarizações internacionais.