Eleições no Peru avançam para segundo turno com Keiko Fujimori como favorita
As eleições presidenciais no Peru, realizadas no domingo, avançam para um segundo turno com a direitista Keiko Fujimori como clara favorita. O pleito foi marcado por significativos atrasos logísticos, questionamentos à autoridade eleitoral e uma profunda instabilidade política que caracteriza o país sul-americano.
Resultados preliminares e declarações polêmicas
Com aproximadamente 40% dos votos apurados, a ex-congressista e filha do falecido ex-presidente Alberto Fujimori lidera a contagem com 17,17% dos votos. Ela é seguida de perto pelo ex-prefeito de Lima, Rafael Lopez Aliaga, com 16,97%, segundo dados preliminares da ONPE, o órgão eleitoral peruano.
Em um breve discurso na segunda-feira, Keiko Fujimori comemorou os resultados e fez uma declaração que ecoou no cenário político: "Os resultados são um sinal muito positivo para o nosso país, porque o inimigo é a esquerda", afirmou a candidata, que concorre pela quarta vez consecutiva à presidência.
Problemas logísticos e questionamentos eleitorais
O processo eleitoral foi prejudicado por graves falhas operacionais. Quase 63 mil cidadãos peruanos não conseguiram exercer seu direito de voto devido à falta de cédulas, urnas e outros materiais eleitorais essenciais. Em um país onde o voto é obrigatório, essa situação gerou indignação generalizada.
Os atrasos na distribuição dos materiais forçaram a prorrogação da votação em diversas regiões, permitindo que eleitores comparecessem às urnas também na segunda-feira. "Quero expressar minha solidariedade aos cidadãos a quem hoje foi negada a oportunidade de exercer seu direito de voto", declarou Fujimori em uma coletiva à imprensa.
O chefe da autoridade eleitoral peruana (JNE), Roberto Burneo, anunciou que medidas legais seriam tomadas contra a empresa responsável pela distribuição dos materiais de votação. Em Lima, longas filas se formaram sob calor intenso, e protestos noturnos denunciaram supostas irregularidades, com manifestantes gritando "fraude".
O legado Fujimori e a instabilidade política peruana
Keiko Fujimori representa a volta do legado político de seu pai, Alberto Fujimori, que governou o Peru entre 1990 e 2000. Seu governo foi marcado por um "autogolpe" de Estado em 1992, quando dissolveu o Congresso e fechou o Poder Judiciário com apoio das Forças Armadas.
Alberto Fujimori foi posteriormente condenado a 25 anos de prisão por corrupção e como mandante dos massacres de Barrios Altos (1991) e La Cantuta (1992), crimes considerados contra a humanidade. Suas políticas radicais incluíram a esterilização forçada de indígenas e a exibição pública de guerrilheiros presos em jaulas.
O Peru enfrenta uma crise de instabilidade institucional desde 2016, tendo tido oito presidentes diferentes nos últimos dez anos. Em fevereiro, o Congresso destituiu o presidente interino José Jerí, que era alvo de investigações por suposto tráfico de influência.
Segundo pesquisa do Latinobarómetro, mais de 90% dos peruanos têm "pouca" ou "nenhuma confiança" em seu governo e Parlamento, o índice mais elevado em toda a América Latina. O pleito ocorre ainda em um contexto de escalada da violência do crime organizado, com 2.200 homicídios registrados no ano passado e aumento de 19% nas denúncias de extorsão.
Próximos passos e propostas de campanha
O segundo turno das eleições presidenciais peruanas está previsto para 7 de junho. Entre as propostas centrais de Keiko Fujimori está a retirada do Peru da Corte Interamericana de Direitos Humanos, medida que, segundo ela, permitiria endurecer os julgamentos de criminosos.
A contagem oficial dos votos continua avançando lentamente, enquanto o país aguarda a definição final do cenário eleitoral em meio a um dos períodos mais turbulentos de sua história política recente.



