Peru encerra campanha eleitoral marcada por polarização e discursos radicais
A campanha eleitoral para a presidência do Peru chegou ao fim nesta quinta-feira, marcada por discursos radicais dos principais candidatos e um cenário profundamente fragmentado. Na eleição de domingo (12), nenhum dos 35 candidatos – um recorde histórico – está próximo de garantir metade dos votos necessários para evitar um segundo turno, previsto para junho.
Fragmentação eleitoral e promessas de repressão ao crime
Em um país onde os eleitores estão cansados da violência e de uma crise política marcada pela posse de oito presidentes em dez anos, os pretendentes à chefia do Executivo prometeram reprimir o crime – frequentemente associando-o à imigração irregular. As pesquisas favorecem Keiko Fujimori, líder da direita e filha do ex-presidente Alberto Fujimori, que governou o país entre 1990 e 2000.
"O cenário eleitoral deste ano está fragmentado: nenhum candidato tem uma vantagem convincente e uma parcela significativa do eleitorado permanece indecisa", observa Nicolas Saldias, cientista político da Economist Intelligence Unit. A disputa pelo segundo lugar deve ocorrer entre o humorista Carlos Álvarez, o ultraconservador Rafael López Aliaga, o centrista Ricardo Belmont e o representante de esquerda Roberto Sánchez.
Keiko Fujimori e a herança do pai
Em um complexo esportivo em um bairro operário da zona sul de Lima, Keiko Fujimori fez um discurso pontuado de referências ao seu pai, condenado por corrupção e violações de direitos humanos. "Por onde passamos, há lembranças, memórias e gratidão pelo melhor presidente que o Peru já teve: Alberto Fujimori", declarou a candidata, que concorre pela quarta vez à presidência.
Cerca de 37 anos, a artesã Silvia Arenas, eleitora de Keiko, afirmou: "Todos os dias temos mortes. Queremos dar a uma mulher a oportunidade de assumir o comando neste caos". Centenas de militantes agitaram bandeiras laranjas, as cores de seu partido Força Popular, entoando "Chino, Chino", apelido de seu pai, que era descendente de japoneses. Fujimori promete controlar as fronteiras para conter a imigração irregular e exigir que os presos trabalhem em troca de comida.
Propostas radicais dos outros candidatos
Perto do centro de Lima, os eleitores de Rafael López Aliaga, de 65 anos e apelidado de "Porquinho", reuniram-se para seu último comício. Membro da direita cristã, ele promete expulsar imigrantes irregulares e levar criminosos para prisões isoladas na floresta. "Qualquer venezuelano que esteja em situação irregular no Peru deve ir embora, deve retornar à Venezuela", declarou, referindo-se ao que afirma ser sua primeira medida se for eleito.
Na zona leste da capital, de dez milhões de habitantes, o candidato Carlos Álvarez, de 62 anos, se posiciona como um outsider do cenário eleitoral. Conhecido pelas paródias que faz na TV sobre os protagonistas de escândalos políticos das últimas décadas, Álvarez leva ao palanque ironias e críticas contra seus oponentes, apresentando propostas de extrema direita, como a volta da pena de morte no país. "Queremos um país com melhor educação, com segurança, sem criminosos", declarou.
Já Ricardo Belmont, de 80 anos, encerrou sua campanha em Lima na terça-feira, em um comício no qual conclamou seus eleitores a "eliminar os políticos miseráveis" nas urnas. O candidato da esquerda democrática, Roberto Sánchez, encerrou sua campanha na zona norte da capital, prometendo conceder indulto ao ex-presidente Pedro Castillo, que está preso desde 2022.
O advogado Mario Guerra, de 55 anos, resumiu o sentimento de muitos eleitores: "O Peru está cansado daqueles que se agarram ao poder e não fazem nada pelo povo". Com a campanha encerrada, o país aguarda um domingo decisivo que poderá definir não apenas um novo presidente, mas o rumo de uma nação em busca de estabilidade após uma década de turbulência política.



