Hungria vota em eleições decisivas que podem encerrar era de 16 anos de Viktor Orbán
Neste domingo (12), a Hungria realiza eleições parlamentares que podem marcar uma virada histórica no país, com a possibilidade de encerrar os 16 anos de poder do primeiro-ministro Viktor Orbán. As pesquisas indicam que a oposição, liderada pelo ex-aliado político Péter Magyar, pode vencer por ampla margem, em um pleito marcado por denúncias de interferência estrangeira e uma disputa direta entre as forças políticas.
Contexto e trajetória de Orbán no poder
Viktor Orbán é uma figura central da extrema direita europeia, tendo sido eleito pela primeira vez como primeiro-ministro em 1998. Após um período fora do poder, retornou em 2010 com uma vitória esmagadora e, desde então, governa o país com seu partido Fidesz, que detém ampla maioria no Parlamento. Durante seu mandato, Orbán promoveu mudanças constitucionais e aprovou leis para criar uma "democracia cristã iliberal", restringindo a liberdade de imprensa, enfraquecendo o Judiciário e limitando direitos de minorias, como a comunidade LGBTQIA+.
Suas políticas antimigração e postura nacionalista conservadora mantiveram apoio popular, mas geraram atritos com a União Europeia, que suspendeu bilhões de euros em repasses devido a violações de padrões democráticos. Orbán venceu as quatro últimas eleições com vantagem, beneficiado por uma oposição fragmentada e seu controle político.
Ascensão de Péter Magyar e mudança no cenário eleitoral
Em 2025, o cenário político húngaro mudou significativamente. Com a economia estagnada há três anos e alegações de enriquecimento de uma elite ligada ao governo, Orbán perdeu força interna. Nesse contexto, Péter Magyar, ex-aliado do premiê, ganhou espaço ao liderar o partido de centro-direita Respeito e Liberdade, conhecido como Tisza.
Magyar, que inicialmente se inspirou em Orbán, afastou-se do governo, acusando-o de corrupção e mudando de partido. Ele promete reaproximação com a União Europeia e aliados ocidentais, enquanto mantém políticas conservadoras, como o combate à imigração ilegal. Com discursos voltados para redes sociais e comícios de estética patriótica, Magyar é visto por apoiadores como alguém que "enfrenta o sistema", resultando em um salto nas pesquisas.
Estimativas baseadas em pesquisas de opinião realizadas entre fevereiro e março indicam que o Tisza pode conquistar entre 138 e 142 das 199 cadeiras do Parlamento, o que lhe daria dois terços das vagas e permitiria reformas constitucionais. Em contraste, o Fidesz de Orbán deve obter entre 49 e 55 cadeiras, enquanto outro partido de extrema direita, Mi Hazank, deve conquistar cinco ou seis assentos.
Acusações de interferência estrangeira e alianças internacionais
A eleição é cercada por acusações de interferência estrangeira. Orbán, que é o governante há mais tempo no poder na União Europeia, construiu alianças com líderes globais como Vladimir Putin, da Rússia, e Donald Trump, dos Estados Unidos. Trump atuou diretamente na campanha, recebendo Orbán na Casa Branca em fevereiro e publicando mensagens de apoio à reeleição do premiê nas redes sociais.
Dias antes da eleição, Trump enviou o vice-presidente J.D. Vance à Hungria para participar de eventos ao lado de Orbán. Em discurso, Vance acusou a União Europeia de tentar interferir no pleito, classificando a estratégia como "vergonhosa". A imprensa europeia também reportou que a Rússia teria tentado interferir para manter Orbán no poder, com sugestões de encenar uma tentativa de assassinato contra o premiê para provocar uma virada eleitoral.
Orbán irritou parceiros europeus ao bloquear um pacote de R$ 535 bilhões em ajuda à Ucrânia, afirmando que a eleição é uma decisão entre "guerra ou paz" e sugerindo que a oposição arrastaria a Hungria para o conflito. Outros apoiadores internacionais de Orbán incluem a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, a líder francesa Marine Le Pen e Alice Weidel, da Alternativa para a Alemanha, todas ligadas a movimentos de ultradireita na Europa.
Promessas de mudanças e perspectivas futuras
Péter Magyar promete adotar uma postura mais construtiva nas relações com a União Europeia e a Otan, sem divergir totalmente de Orbán em temas como o pacto migratório europeu. Em relação à Rússia, Magyar disse que pretende agir de forma "pragmática". Seu programa de governo inclui medidas mais duras contra a corrupção, integração ao gabinete do procurador europeu, fortalecimento da independência da mídia pública e do Judiciário, ampliação da transparência em contratos públicos e estabelecimento de limite de dois mandatos para primeiros-ministros.
Além disso, Magyar propõe redução da intervenção estatal na economia e melhorias nos sistemas públicos de saúde e educação. Analistas, como Mujtaba Rahman, diretor para a Europa do think tank Eurasia Group, afirmam que um governo liderado pelo Tisza provavelmente aumentaria a confiança de investidores e afastaria a Hungria da posição de país mais isolado dentro da União Europeia, mesmo que a execução das promessas fique abaixo do esperado.
As eleições deste domingo representam um momento crucial para a Hungria, com potencial para redefinir seu rumo político após mais de uma década e meia sob o comando de Viktor Orbán. O resultado poderá influenciar não apenas a política interna, mas também as relações do país com a União Europeia e o cenário internacional.



